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terça-feira, 5 de maio de 2015

Sabedoria ancestral

Maria Aurélia foi diferente de suas amiguinhas desde muito pequena. Gostava de brincar sozinha. Ficava quietinha por muito, muito tempo, observando uma coisa qualquer, uma formiga caminhando ou uma folha de árvore balançada pelo vento. Via coisas que os outros não notavam, como o reflexo do sol na parede, que formava uma letra A perfeita. Quando perdiam algo, logo pediam a Maria Aurélia que procurasse, pois ela encontrava, mesmo que fosse um cisco num carpete.
Era linda, de cabelos escuros e olhos verdes. Talvez por isso, talvez por ter sido sempre muito elogiada, fechou-se em copas. Era tímida no contato com as pessoas. Gostava de plantas e animais. Com esses entendia-se perfeitamente. Cachorros, gatos, pintinhos, todo tipo de bicho se sentia seguro ao lado de Maria Aurélia, que conversava com eles com uma voz muito mansa. Assim, quando ia pela rua, ela nunca estava só. Sempre era acompanhada por uma fileira de animais que brincavam de trançar entre suas pernas.
Com as plantas ela era um pouco mais dura. Mas foi nessa área que sua esquisitisse se revelou milagrosa.

domingo, 17 de outubro de 2010

Mulheres de peito


Você ê mulher peituda, que encara a vida de frente? Atenção.

Segundo a Estimativa 2010 – Incidência de Câncer no Brasil, do Instituto Nacional de Câncer, Inca, mais de 49 mil mulheres terão tumores de mama até o final do ano.

O Inca lançou um folheto com sete recomendações para reduzir a mortalidade por câncer de mama no Brasil. Entre outras, considera como direito da mulher com nódulo palpável e outras alterações suspeitas receber diagnóstico em no máximo de 60 dias.

sábado, 16 de outubro de 2010

Ciência e bizarrices

Entretenimento da hora: comprar uma análise individual do genoma.
O relatório custa umas poucas centenas de dólares e pode até ser uma diversão. Como um mapa astral, por exemplo.
A questão: o que você faz com a informação, digamos, de que tem 3% a mais de chance do que a média de ter hipertensão, câncer ou diabetes?

Quem anda pensando nisso é Eric Green, diretor do Instituto Nacional de Pesquisa do Genoma Humano dos Estados Unidos, que fez um mea-culpa pelas promessas não cumpridas. Diz que houve ingenuidade em torno dos anúncios sobre os resultados práticos da pesquisa. "Se você olhar para os avanços médicos na história, dificilmente vai encontrar algo que realmente mudou a prática da medicina em uma década. Se tivéssemos sido lembrados disso há 10 anos, provavelmente teríamos visto tudo de maneira diferente."

Ah, a História...

Leia: Líder em genômica diz que fomos ingênuos sobre potencial de sequenciamento do DNA

Imagem: Nicolle Fuller/NSF

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Solidao e magoa ceifeiras

Foi numa ronda, numa noite escura, que os policiais tropeçaram num embrulho encostado na parede de uma casa em ruínas na periferia de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Um bebê imóvel, calado, minúsculo.

Dali ele foi levado a uma casa da Febem – instalação pequena, com boa estrutura, cozinheira, faxineira, enfermeiras, cuidadoras... E seis bercinhos ocupados por bebês sorridentes e agitadíssimos.

Já no dia seguinte o garoto foi ao pediatra. Ao neurologista. Ao oftalmo. A uma maratona de exames. Estava desidratado, sim, mas a saúde física era boa – exceto pelo fato de que ele tinha idade estimada de seis meses e tamanho de recém-nascido. Não chorava, não mamava, não sorria – e não crescia. O diagnóstico: faltavam a ele carinho e amor, vontade de viver.

Bem, a mulherada se digladiou e acabou montando uma grade de horários para que cada uma pudesse segurar o menino no colo, brincar com ele, acariciá-lo e alimentá-lo por um tempinho. Quando estive ali, isso acontecia havia dois meses. Sem progressos. Pior. O garoto não podia ser oferecido à adoção, porque a polícia não localizara sua mãe, que oficialmente tinha poder sobre ele.

Nesta mesma casa da Febem fiquei sabendo de outra história. De uma menininha deixada para adoção por uma moça que, logo em seguida, morreu vítima de Aids. A menina também era portadora do vírus HIV. Tinha dois anos de idade. Uma enfermeira encantou-se com ela. Por um ano lutou nos tribunais, até conseguir adotá-la. Mais um ano se passou. A garota foi submetida a exames e... Estava negativada, com a doença sob controle!

A enfermeira era uma das tantas que lutava para ficar com a guarda do menininho triste, que não crescia. E que veio a falecer antes de completar um aninho. Velho e cansado da vida.