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quarta-feira, 3 de novembro de 2010

“Sê plural como o universo!”


O verso que dá título a este post é de Fernando Pessoa. Tema e inspiração.

Informação: 1317 volumes em oito idiomas, da biblioteca particular de Fernando Pessoa, inclusive manuscritos, foram digitalizados. Isso além de assinaturas, dedicatórias, anotações em margens de livros, estudos e recortes de jornais colecionados pelo poeta. Tudo está disponível no site da Casa Fernando Pessoa, de Portugal.

Pessoa marcou, por exemplo, as seguintes palavras na biografia de John Keats: «O poeta é a coisa menos poética de toda a existência porque não tem identidade; ele está continuamente no lugar de outro, preenchendo outro corpo».

E escreveu Eu sou uma Antologia:

Eu sou uma antologia.
‘Screvo tão diversamente
Que, pouca ou muita a valia
Dos poemas, ninguém diria
Que o poeta é um somente.

Assim deve ser — qualquer,
Enfim porque já o seja —
Pode ser um, porque o é.
O poeta deve ser
Mais do que um, para poder.

Depois para si o poeta
Deve ser poeta também.
Se ele não tem a completa
Diversidade
Não é poeta, é só alguém…

Eu, graças a Deus, não tenho
Nenhuma individualidade.
Sou como o mundo.

Curiosidades… Muitas…
O site oferece mais: escritos de outros autores portugueses. Experimente clicar na aba Banco de Poesia.

Quem gosta de Saramago, por exemplo, já leu Adivinhas?

Quem se dá quem se recusa
Quem procura quem alcança
Quem defende quem acusa
Quem se gasta quem descansa

Quem faz nós quem os desata
Quem morre quem ressuscita
Quem dá a vida quem mata
Quem duvida e acredita 

Quem afirma quem desdiz
Quem se arrepende quem não
Quem é feliz infeliz
Quem é quem é coração

E quem conhece Manuel Maria l' Hedoux de Barbosa du Bocage? Pois é mesmo Bocage, considerado o maior poeta português do século XVIII, que teve rápida passagem pelo Brasil, foi preso, acusado de ser "autor de papéis ímpios e sediciosos", internado em manicômio e em convento. Sua biografia está no site. Vale a leitura. Escreveu, em Retrato Próprio:

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura;
Nariz alto no meio, e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.

A Casa Fernando Pessoa fica no Campo de Ourique, em Lisboa. A internet resolve ao menos parte do problema de quem não pode chegar até lá...

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Edemaciado

Edemar Cid Ferreira é nome conhecido. Chegou a presidir a Fundação Bienal de São Paulo. Promoveu exposições memoráveis, como a retrospectiva das obras de Pablo Picasso. 

Vivia num imenso bolo de noiva no bairro do Morumbi, em São Paulo, cuja construção lhe custou 85 milhões de reais. E controlava o Banco Santos, sétima maior instituição financeira privada do Brasil antes de falir e sofrer intervenção do Banco Central em 2005. 

Condenado a 21 anos de prisão no ano seguinte, Edemar foi acusado de crime contra o sistema financeiro, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e gestão fraudulenta; além de responder processo por outros delitos, entre eles o fomento à criação do Bank of Europe e de offshores em paraísos fiscais, a manutenção de contas correntes na Suíça sem declaração às autoridades, e a negociação de obras de arte no mercado negro nacional e internacional. Mas apenas 15 dias depois o Supremo Tribunal Federal concedeu seu pedido de liberdade.

Atualmente ele circula faceiro no high society paulistano. No último final de semana de setembro, por exemplo, era convidado em um casamento no Leopolldo Plaza. Isso dias depois de receber a notícia de que dois dos quadros de seu acervo pessoal de 12 mil peças de arte, que não foram encontrados pela polícia quando seus bens foram interditados, haviam sido descobertos num armazém de Nova York e devolvidos à Justiça brasileira pelo Immigration and Customs Enforcement's Office of Homeland Security Investigations, dos Estados Unidos.

Figures Dans Une Structure, do uruguaio Joaquín Torres García, e Modern Painting with Yellow Interweave, do americano Roy Lichtenstein, avaliados em 4 milhões de dólares, deixaram o Brasil em direção à Holanda e de lá foram embarcadas, ainda em 2006, para os Estados Unidos. 

A estimativa da Interpol é de que, entre pinturas, esculturas e antiguidades, seus bens em território norte americano somem de 20 a 30 milhões de dólares. O que restou no Brasil está sob a guarda provisória de diversos museus de São Paulo, entre eles o Museu de Arte Contemporânea e o Museu de Arte Sacra.

Edemar é dessas personagens curiosas que conseguem saltar do anonimato à fama e, mesmo na lama, não perdem a pose. Nasceu em Santos, no litoral sul de São Paulo. O pai era gerente de uma empresa de exportação e exportação. A mãe, dona de casa, era amante das artes. Estudou em colégio de padres. Foi funcionário do Banco do Brasil dos 18 aos 21 anos de idade, estudou Economia e Finanças, e aproveitou oportunidades de viajar a estudo ou trabalho para países como Canadá, Japão e Austrália.

Aos 22 anos, em 1966, largou o banco e abriu uma empresa de assessoria em comércio exterior. Teve sucesso. Dois anos depois, adquiriu em leilão público um título da Bolsa de Valores de Santos e, no ano seguinte, montou a Santos Corretora de Câmbio e Valores, que acabou se transformando no malfadado Banco Santos, com autorização para funcionar a partir de 1989.

Esse é seu lado empresário propriamente dito. A faceta colecionista nasceu quando Edemar tinha 14 anos de idade e ganhou uma coleção de moedas antigas do avô. Três anos depois, comprou seu primeiro mapa de capitanias hereditárias... E não parou mais. Fotografias, documentos históricos, objetos arqueológicos, arte plumária, há de tudo um pouco no acervo que, diga-se, não está em nome do empresário, mas de pessoas jurídicas. 

Antes de se enrolar com a Justiça, Edemar chegou a atuar como representante brasileiro junto ao World Economic Forum, em Genebra, na área de meio ambiente. É pouco? Pois aos 66 anos de idade, essa figura ainda pode aprontar muitas...

A foto da casa de Edemar Cid Ferreira está no link http://www.ligaoperaria.org.br/lutaclassista/castelos.htm

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Deolinda, uma heroína de Angola no Brasil


Entre 1960 e 1961 viveu no Brasil uma jovem chamada Deolinda Rodrigues Francisco de Almeida. Angolana, era estudante de Sociologia no Instituto Metodista de Ensino Superior, em Rudge Ramos, na Grande São Paulo. Hoje o prédio, tombado como Patrimônio Histórico, guarda um museu. E Deolinda é nome de praça e avenida em Luanda – é uma das Heroínas cuja coragem na luta pela Independência de Angola, entre 1961 e 1975, é lembrada no Dia da Mulher Angolana, em 2 de março.

Deolinda é a mais conhecida das Heroínas de Angola por razões compreensíveis: escreveu um diário que foi preservado; era prima de Agostinho Neto, o herói da independência angolana; seu irmão Roberto de Almeida tornou-se político de realce na Angola independente; e sua história tem ingredientes marcantes.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O semeador de livros

Num antigo bairro paulistano, afastado do centro da cidade, onde nos anos 1950 e 1960 se instalaram famílias de classe média, se encontrava aquela casa clara, térrea, com jardim amplo - embora já bastante reduzido. Nele foi construído um prédio moderno, climatizado, de concreto armado, para abrigar os milhares de livros, obras de arte, lembranças de viagem do casal Mindlin, José e Guita.

José e Guita compartilharam tudo na vida por 68 anos. Acreditavam que amor e casamento são construções diárias, e que ser feliz é questão de querer. “Brigar é fácil. Não brigar exige parar e pensar”, ensinava José, o sábio.

Logo à entrada, à direita, ficavam a cozinha e a mesa de refeições – onde ambos almoçavam juntos diariamente, quase sempre na companhia de algum amigo. Adiante ficava a sala, dominada por uma enorme estante e decorada com esculturas e pequenos objetos – os quadros eram tantos que ficavam pendurados até sobre as portas. Do janelão de vidro da sala se via o prédio da biblioteca, com mais de 40 mil exemplares cuidadosamente catalogados e preservados.

A coleção começou a se formar quando Mindlin tinha 13 anos de idade. Sua primeira aquisição foi Discours sur l'Histoire universelle de Jacques-Bénigne Bossuet, de 1740. Com o tempo, a biblioteca tornou-se famosa por suas raridades – manuscritos históricos e literários; a versão original de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa; as primeiras edições de Os Lusíadas, de Camões, de O Guarani, de José de Alencar, e de A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo.

Foi neste ambiente que o maior e mais importante bibiliófilo do Brasil curtiu seus últimos 15 anos de vida. Escreveu Uma vida entre livros – reencontros com o tempo, autobiografia deliciosa em que ele confessa, entre outras coisas: "Num mundo em que o livro deixasse de existir, eu não gostaria de viver."

Mindlin encontrava o que queria com um olhar rápido para a estante – a mão alcançava o volume como se estivesse sendo puxada por um imã. Citava longos trechos com lágrimas nos olhos. Recitava décor textos de literatura de cordel. Com paciência sem fim, fazia recomendações de leitura, explicava a importância de autores, contava histórias. E lamentava que a vida fosse tão curta para tanto que havia para ler e apreciar. Conversar com ele era como fazer um curso intensivo. Um prazer.

Filho de um casal de judeus russos que chegou ao Brasil em 1910, Mindlin era advogado formado na Universidade de São Paulo. Era considerado por seus pares como administrador de competência indiscutível, comandante da fábrica de autopeças Metal Leve, exemplo de sucesso e de resistência contra a concorrência de companhias estrangeiras. Desfez-se do negócio com um nó na garganta em meados de 1996, aos 81 anos.

Aposentado como empresário, dedicou-se em tempo integral a suas outras paixões: a leitura e a biblioteca. Em 2006, depois de enfrentar burocracias injustificáveis, conseguiu doar 15 mil exemplares de sua coleção à Universidade de São Paulo, e o acervo foi transferido para o campus da universidade. Mindlin morreu aos 95 anos de idade, em fevereiro de 2010 – com quatro filhos, 12 netos e 12 bisnetos – sem ver pronto e em funcionamento o prédio da biblioteca Brasiliana. O site da biblioteca é http://www.brasiliana.usp.br/index.php. Inclui uma ferramenta para pesquisa digital que permite (ao menos parcialmente) acesso a folhetos e periódicos buscados por conteúdo.

Antes de sua morte, com a vista cansada e enfraquecida, dizia: “Tenho saudades de passear os olhos pelas letras enfileiradas, no silêncio da leitura, e de manusear o objeto de papel e tinta. Nada substitui o livro.”

Leia mais sobre José Mindlin no site da Academia Brasileira de Letras - http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=546

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Nada manso

Os paulistas com mais de 50 anos certamente lembram-se do chá da tarde e dos elevadores do prédio do Mappin, plantado na Praça Ramos de Azevedo, diante do Teatro Municipal. Assim como da loja de chapéus Ramenzoni, não muito longe dali. Ou mesmo da Mesbla, que embora tivesse sede no Rio de Janeiro também fez muito sucesso em São Paulo. 

Pois tudo isso desapareceu por obra e arte de um único personagem: Ricardo Mansur. Ele foi retirado da escola aos 19 anos de idade, quando a loja de tecidos de seus pais libaneses foi à falência. Recebeu algum dinheiro para tomar as rédeas de sua vida e abriu uma papelaria, mas não era muito de bater ponto, cuidar de estoque, lidar com contabilidade. Frequentava a turma do Colégio Dante Alighieri e, embora não fosse rico, desfilava num Ford Fairlane importado e fazia sucesso. 

Tornou-se um magnata precoce devido a uma habilidade – sabia comprar empresas cujos donos estavam loucos para se livrar delas, e vendê-las com lucro. Foi assim com as tradicionais lojas de departamento Mesbla e Mappin, e com os chapéus Ramenzoni. Mas estas não foram suas únicas tacadas. Foi dono da Vigor: comprou no longo prazo, nomeou seu irmão como administrador, e saldou os pagamentos com os rendimentos proporcionados pelo negócio. Também arrematou a Leco, outra fábrica de laticínios que acumulava dívidas e brigas entre os sucessores da família proprietária.

Em 1990 fez uma jogada um pouco diferente. Investiu 16 milhões de dólares na montagem de trinta lojas da Pizza Hut, franqueadas da Pepsi Cola. Como as pizzarias fizeram sucesso rapidamente, a Pepsi quis reavê-las. Pagou 30 milhões de dólares e deu a Mansur um lucro de 14 milhões de dólares em pouco mais de dois anos.

Praticante de pólo, ele garante que já disputou uma partida com o príncipe Charles, da Inglaterra – país dos seus sonhos. Seu guarda roupa, bem como os objetos de decoração de seus escritórios e residências, têm etiquetas britânicas. Em geral com estampas de cavalos. 

Grandalhão, Mansur não tem nada de discreto. Suas mãos são como aquelas espátulas de forno de pizzaria. Os cabelos ralos são cuidadosamente colados à cabeça. E as cores dos trajes são combinadas com esmero. Não. Não é exatamente um dandy. Na Hípica Paulista é bastante lembrado o dia em que, depois de uma partida de polo, houve um desentendimento entre Mansur e Arnaldo Diniz (irmão mais novo da família que detinha o controle do grupo Pão de Açúcar), que jogavam em times opostos. Pouco depois os dois se encontraram num restaurante e Mansur quebrou uma garrafa de água mineral na cabeça do adversário. 

De volta aos negócios. Mesbla e Mappin faliram. O Banco Central liquidou o banco de Mansur, o Crefisul. Todos os seus negócios estavam quebrados, mas seu patrimônio pessoal era estimado em meio bilhão de dólares. Mansur era dono de mansões em Londres, no bairro do Morumbi, em São Paulo, e em Indaiatuba, no interior paulista – quase idênticas, em estilo neoclássico. Tudo estava em nome da esposa e dos três filhos quando, acusado de crime contra o sistema financeiro, ele foi preso por 51 dias. Solto, não foi visto no Brasil por vários anos.

Não pense que a novela para por aí. Corriam processos e mais processos na Justiça, e a polícia se mobilizava para localizar os dinheiros de Mansur no Brasil e no exterior, mas ele voltou. Em agosto de 2009, a família Balbo, proprietária da Usina Galo Bravo, de Ribeirão Preto, entregou-lhe seu negócio para que ele conseguisse recursos e saldasse uma dívida estimada em 450 milhões de reais. Pois onze meses depois, ao ser afastado do controle da usina, Mansur deixou uma dívida bem maior: de 2,5 bilhões de reais. Na mesma época, comprou uma destilaria no interior de São Paulo e a Faculdade Batista de Vitória, no Espírito Santo. Tudo foi restituído aos antigos donos e o Tribunal de Justiça de São Paulo suspendeu o bloqueio dos bens de Mansur e de seus familiares.

Antes que essa figura da história empresarial brasileira dê seu próximo bote, o que se sabe é que a rede de lojas Marabraz  adquiriu os direitos sobre a marca Mappin, em leilão público, pela bagatela de 5 milhões de reais, menos da metade do valor estabelecido pela Justiça, pois não havia outros interessados no nome. Nem mesmo Mansur, o bravo, apareceu no leilão.


Há notícias, artigos e reportagens sobre Ricardo Mansur e suas atividades, entre outros, nos seguintes sites: http://www.estadao.com.br, http://epoca.globo.com, http://www.istoedinheiro.com.br, http://veja.abril.com.br, http://oglobo.globo.com.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Sabedoria soterrada




O arqueólogo peruano Walter Alva não é lá muito parecido com Indiana Jones. Usa boina; almoça e janta em casa com a esposa; tem uma barriguinha avantajada; e provavelmente jamais será visto com um chicote na mão. Mas as emoções que vive são bem semelhantes às do personagem hollywoodiano. É um caçador de ladrões de memórias alheias – além de ser pesquisador em sítios arqueológicos e diretor de um dos mais importantes museus do Peru, o Museo Tumbas Reales de Sipán, na cidade de Chiclayo, em Lambayeque.

Foi Walter Alva quem descobriu a tumba do Señor de Sipán, imperador da civilização Mochica. Os Moches mantinham organização hierárquica imperial equiparável à do Egito Antigo, e calcula-se terem controlado a costa norte do Peru por cerca de um milênio, entre 300 antes de Cristo e 700 depois de Cristo. Alva demonstrou que este povo tinha tecnologia para construir grandes obras como canais de irrigação, pirâmides e muralhas – tudo em barro. Quando se passeia pelas cercanias do sítio arqueológico de Sipán, o que parecem ser montanhas como outras quaisquer são pirâmides ou fortificações que guardam uma história ainda pouco conhecida.


Alva começou a esquadrinhar a região em 1987, depois de ter sido alertado pela polícia de que havia saqueadores na área. Ao responder ao chamado, deu-se conta de que estavam levando dos morros de Lambayeque mais do que cacos de potes de cerâmica: havia colares de prata, esculturas rituais e muito mais sob a poeira vermelha.


O local é cenário de rituais religiosos e cemitério da nobreza da antiga civilização. Ali já foram localizados 16 túmulos. Os primeiros, do Senhor de Sipán e do Velho Senhor de Sipán, com acompanhantes, serviçais, objetos e joias. O achado mais recente, de 2010, é de tumbas que guardam os restos mortais de três pessoas: um adolescente com cerca de 13 anos de idade, uma mulher e um homem ainda não identificados.


Para Alva tudo isso é muito interessante. Pode levar à compreensão do passado peruano. Mas ele considera mais importante outro resultado. A recuperação da autoestima daqueles que vivem onde antes havia riqueza e atualmente grassa a pobreza.


– A sabedoria dos povos que eram capazes de plantar e produzir nesta região árida perdeu-se. Está sob a terra. Precisamos recuperá-la para ajudar as gentes de hoje.

A Unesco publicou entrevista com Walter Alva em http://www.unesco.org/courier/2001_04/uk/doss26.htm
O link do Museo Tumbas Reales de Sipan é www.tumbasreales.org

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Diplomacia Especial


Um senhor elegantíssimo, entrando na casa dos 80 anos de idade. Terno impecável. Fala tranquila. E histórias de arrepiar. O embaixador aposentado Ovídio de Andrade Melo, nascido em Barra do Piraí, no Rio de Janeiro, é pintor: artista primitivo que assina Juca seus quadros que retratam do metrô de Londres a paisagens africanas. Também é escritor: publicou “Recordações de um removedor de mofo do Itamaraty: relatos da política externa de 1948 à atualidade”.

Conversei com ele em 2009 por outro motivo. Ovídio Melo foi nosso homem no processo de independência de Angola. O trabalho que realizou resultou num marco. Em 1975, em plena guerra fria, o Brasil, sob regime militar de direita, foi o primeiro país a reconhecer a independência da República Popular de Angola e o governo de Agostinho Neto, presidente do Movimento Popular de Libertação de Angola, o MPLA, apoiado pela União Soviética.

O presidente do Brasil era o general Ernesto Geisel. Seu chanceler, Azeredo da Silveira. Na política externa, por razões conjunturais e de humor de Geisel, o tom era de autonomia em relação aos Estados Unidos. Ovídio, que estava baseado em Londres, esteve na África por várias vezes, no início de 1975, para conversar com os movimentos de libertação das colônias portuguesas, em especial Angola, e conseguir espaço para que o Brasil estabelecesse uma espécie de missão diplomática antecipada, acompanhasse a transição para a independência e planejasse relações futuras entre os países.

A Representação Especial do Brasil em Luanda recebeu carta branca. O embaixador e sua esposa Ivony Melo desembarcaram no aeroporto da capital angolana em março de 1975, em meio a uma guerra-civil acirrada. A missão de contatar lideranças dos três movimentos independentistas, e analisar a situação local, não seria assim tão complicada se estivessem os três partidos estabelecidos em Luanda; se houvesse água, luz, meios de comunicação. Não era o caso. Angola estava em situação caótica.

Aqui vão algumas das aventuras vividas pelo diplomata brasileiro em Angola. Reunidas, suas experiências dariam um romance ao estilo Graham Greene.

Para falar com Jonas Savimbi, chefe da União Nacional para a Independência Total de Angola, a UNITA, foi preciso tomar um carro emprestado a um engenheiro português e percorrer estradas esburacadas por mais de quatro horas, até a pequena cidade de Silva Porto, na província de Huambo, no sudeste do país. Ali nascera Savimbi e ali, também, estava instalado seu quartel-general. O casal foi parado e revistado várias vezes nas ruas de Silva Porto, a caminho do hotel onde seria recebido. Depois, novamente, na sala do primeiro andar onde o encontro de poucos minutos, que nem rendeu muita troca de ideias, foi assistido por guerrilheiros armados postados ao lado de portas e janelas.

Segunda parada: Kinshasa, a capital da República Democrática do Congo, para um encontro previamente agendado com o chefe da Frente Nacional de Libertação de Angola, FNLA, Holden Roberto. Este, durante toda a reunião, falou de si, de seu poder, seus feitos, e sua importância como defensor da democracia e do Ocidente na África.

Dias depois, Ovídio Melo estava em Nairóbi. Queria marcar entrevista com Agostinho Neto em Dar El Salaan, na Tanzânia, onde o MPLA tinha escritório. Soube que o líder do Movimento iria voar bem cedo, no dia seguinte, e se dispunha a conceder a entrevista no aeroporto de Nairóbi, onde faria uma escala rápida. Mas o embaixador brasileiro andava meio cansado de conversas rápidas. Queria mais. Na mesma noite foi para Dar El Salaan disposto a voltar no avião em que Agostinho Neto embarcaria na manhã seguinte. Resultado: a conversa durou todo o trajeto entre as duas capitais africanas. E Ovídio Melo soube que aquela viagem tinha significado histórico e sentimental para Agostinho e sua comitiva. Era o fim do exílio do MPLA na Tanzânia. Depois da escala em Nairóbi todos seguiriam para Luanda, aonde chegariam em 4 de fevereiro, data do início da luta pela independência em Angola.

Por volta de um mês antes de 11 de novembro, o dia da Independência de Angola, o Embaixador conversou com o Brasil e enviou correspondência com suas observações e recomendações ao Itamaraty. Recorda que argumentou:

“Tínhamos sido respeitosos para com todos os movimentos organizados em Angola, tínhamos sido neutros em todas as lutas que presenciamos, tínhamos desejado chegar cedo a Luanda para planejar as relações futuras. Deveríamos, então, reconhecer Angola na data exata da Independência, porque estivemos sempre, e estaremos no futuro, irmanados pela língua, pela cultura, pela História."

Assim foi. No mesmo momento em que Agostinho Neto proclamava a independência em Luanda, o governo brasileiro divulgava, em Brasília, nota de reconhecimento do novo país e de seu governo.

O Embaixador Ovídio estava na sacada do Palácio quando Agostinho Neto discursou. Era o único chefe de repartições consulares a permanecer em Luanda. Não apenas testemunhou a posse do novo presidente angolano: assistiu as manifestações populares e participou das comemorações do MPLA. Dois meses depois estava de volta a Londres. Dali foi ser Embaixador na Tailândia, onde acompanhou os rescaldos da terminada guerra do Vietnam. Mas esta é outra história.

A foto, que me foi enviada pelo Embaixador Ovídio Melo, é datada de 1975. Nela aparece também a embaixatriz Ivony Melo.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A intrigante saga de Lily

Os holofotes iluminaram Lily Safra, a biliardária brasileira que, segundo a revista Forbes, é dona de 1,3 bilhão de dólares, com a publicação do livro `Gilded Lily` (Lily Dourada), uma biografia escrita pela premiada jornalista americana Isabel Vincent, do New York Post. Em 2010 ela ocupou o noticiário por doações que fez a hospitais e instituições de pesquisa, por aquisições e vendas de obras de arte, e também por sua amizade crescente com a nobreza da Inglaterra, em especial com o príncipe Charles e sua esposa Camila. Seu nome figura em jornais e revistas internacionais há décadas. Entretanto, pouca gente conhece Lily. Especialmente no Brasil, onde ela só ganhou algum destaque quando assumiu o sobrenome Safra, de uma das mais bem sucedidas famílias de banqueiros do país. Edmond Safra foi seu quarto marido e teve morte trágica.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Antonio Ermirio e suas muitas paixões

Ícone entre o empresariado nacional, Antônio Ermírio de Moraes, um dos homens mais ricos do planeta, está no rol das personalidades brasileiras cuja biografia merece ser conhecida. Completou 82 anos em 2010. E como nos tempos de juventude, continua batendo ponto nos escritórios do Grupo Votorantim e do Hospital Beneficência Portuguesa. É turrão, exigente, perfeccionista, minucioso. Também tem uma inteligência prática e uma generosidade ímpares.


Antônio Nasceu em São Paulo, em 1928, com um único rim, mas só descobriu o defeito aos 20 anos, quando se formava engenheiro metalúrgico pela Universidade de Colúmbia, nos Estados Unidos. Antes estudou no Liceu Rio Branco, um dos colégios mais tradicionais de São Paulo, aonde chegava a bordo do Oldsmobile de seu pai, José Ermírio, que então já era um empreendedor bem sucedido.


A Votorantim foi fundada em 1918 pelo avô de Antônio Ermírio. Antônio Pereira Ignácio era um sapateiro português que guardou um dinheirinho, comprou uma tecelagem falida, trabalhou nela por cinco anos e resolveu mudar de ramo. O que fez, naqueles idos, foi uma aventura e tanto. Embarcou para os Estados Unidos e empregou-se como operário em uma fábrica de óleo comestível para aprender os mistérios do negócio. Durante o dia pegava no batente como operário e ao cair da noite assumia sua personalidade menos humilde, por assim dizer: frequentava bons restaurantes e se hospedava em hotéis confortáveis. Quando achou que já sabia o suficiente, convidou os diretores da empresa para um jantar de despedida em seu hotel e, para surpresa de todos, além de se apresentar sem o macacão do dia-a-dia, ainda devolveu, fechadinhos, os envelopes que continham os salários pagos durante sua permanência na companhia.


Se esta face da história da família de Antônio Ermírio de Moraes já lhe pareceu interessante, saiba que há muito mais. Ao deixar os Estados Unidos, Antônio Pereira Ignácio foi passear em Portugal, onde conheceu José Ermírio de Moraes. Este vinha de uma família de usineiros pernambucanos. Sua mãe, viúva prematura, desdobrara-se para que José não crescesse enraizado nos canaviais. De fato, ele formou-se engenheiro de minas nos Estados Unidos, em 1916. E mais tarde veio a casar-se com Helena, filha do sapateiro que se tornou milionário. José assumiu as empresas do sogro e deu a elas um novo viço. A Votorantim ingressou pelos caminhos do cimento, da cerâmica, da metalurgia.


Assim, Antônio Ermírio nasceu em berço de ouro, mas trabalhou ao lado do pai desde garoto, e logo que terminou o curso de engenharia assumiu, na prática, a administração dos negócios da família. Sempre foi austero no trabalho como na vida pessoal. Casou-se com a primeira namorada. Reúne filhos e netos ao menos uma vez por semana. Chegou a se aventurar na política, mas descobriu que lhe faltava talento para a coisa. Também enveredou por outros caminhos inusitados – o das letras e o dos espetáculos. Escreveu peças teatrais, administrou diretores e atores, foi aplaudido e paparicado.


Um empresário prático e objetivo? Isso é pouco. Antônio Ermírio é emotivo. E quem quiser comprovar, faça uma experiência: pedir que ele fale sobre seu trabalho voluntário como administrador do Hospital Beneficência Portuguesa. Melhor, não sobre seu trabalho, mas sobre o hospital em si. É uma paixão. Entre tantas.

As informações que compõem esse texto resultam de uma série de entrevistas. Ele falou de ética e eficiência na gestão pública em reportagem de capa da revista Forum & Negocios em 2005. Há uma reportagem especial disponível em http://veja.abril.com.br/030698/p_136.html