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quinta-feira, 21 de maio de 2015

Pegadora voraz

Rica, bonita, empresária bem sucedida.Um problema: é ninfomaníaca.
Tem desejos incontroláveis pelos homens mais improváveis.
Pega altos, baixos, gordos, magros, carecas, cabeludos, zarolhos, intelectuais, semianalfabetos, o que pintar.
Em festas, embaixo de mesas, atrás de cortinas em salas de reunião.
Quando a bandeira começa a ficar muito desfraldada, tira uma temporada fora do país. Férias.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Amor de um dia

Maiara caminhava pela rua do porto como quem caminha pelo corredor de casa - estava em seu ambiente, conhecia todas as pedras do caminho, os buracos, os lugares escorregadios. Short curtinho, sandália de salto alto, batom vermelho, cabelos soltos. Queria diversão e sabia que ali encontraria algo.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Sabedoria ancestral

Maria Aurélia foi diferente de suas amiguinhas desde muito pequena. Gostava de brincar sozinha. Ficava quietinha por muito, muito tempo, observando uma coisa qualquer, uma formiga caminhando ou uma folha de árvore balançada pelo vento. Via coisas que os outros não notavam, como o reflexo do sol na parede, que formava uma letra A perfeita. Quando perdiam algo, logo pediam a Maria Aurélia que procurasse, pois ela encontrava, mesmo que fosse um cisco num carpete.
Era linda, de cabelos escuros e olhos verdes. Talvez por isso, talvez por ter sido sempre muito elogiada, fechou-se em copas. Era tímida no contato com as pessoas. Gostava de plantas e animais. Com esses entendia-se perfeitamente. Cachorros, gatos, pintinhos, todo tipo de bicho se sentia seguro ao lado de Maria Aurélia, que conversava com eles com uma voz muito mansa. Assim, quando ia pela rua, ela nunca estava só. Sempre era acompanhada por uma fileira de animais que brincavam de trançar entre suas pernas.
Com as plantas ela era um pouco mais dura. Mas foi nessa área que sua esquisitisse se revelou milagrosa.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Pura Maldade

Era um homem bom e gentil. Aliás, Gentil era seu nome. Estava sempre pronto a ajudar, servir, apoiar. Professor, leitor compulsivo, tinha sempre histórias para contar, e todos adoravam ouví-lo. Além disso, distribuía abraços. Apertados, afetivos. Era um caramelo. Um doce de coco. Não havia quem não gostasse de si.
Um dia, sua boina preta de riscas brancas foi encontrada no piso de um estacionamento, em meio a uma enorme poça de sangue. O mar que batia forte na amurada e respingava por todo lado não era capaz de limpar aquela violência.

Leoa à caça

Pela manhã, Maria vestia uma roupa esportiva e se mandava para o parque. Fazia longos exercícios de aquecimento na esperança de que chegasse uma companhia, de preferência um homem jovem, bonito, forte. Claro, nem sempre dava sorte. Nesse caso voltava para casa um tanto frustrada, tomava um banho com água bem quente, vestia seu jeans de todos os dias e ia para a faculdade.
No campus havia muitas possibilidades, muitas áreas de caça. Ela farejava. Alguns dias assistia às aulas, em outros ia para o Centro Acadêmico ou ficava no patio, com um café, fingindo ler alguma coisa.

domingo, 19 de junho de 2011

Parideira

Num recanto perdido no interior de Angola, ela, atarracada, forte, toda respingada da terra que usava para fazer tijolos de adobe com que construirá sua casa, sorria satisfeita quando eu cheguei.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Fado

Ela era assim. Menina de pele branca lisinha e cabelos negros, tímida, sempre de olhos baixos. Nascida e criada no interior mineiro. Vestido de babado. Sapato de boneca.

Aos 16 anos, apaixonada por um vizinho, resolveu casar. O pai se enfureceu, a mãe chorou, mas não teve remédio. O casório foi na igreja, com véu e grinalda, quase toda a cidade presente.

Os dois se mudaram para uma casa com cerca branca de madeira, jardim florido, janelas que se abriam para a rua e deixavam a brisa entrar. Até cachorro arrumaram, pra completar o cenário.

Seis meses se passaram. Num sábado, enquanto ela preparava o almoço, ele saiu de motocicleta para buscar ração logo ali pertinho. Andou dois quarteirões. Foi pego por um caminhão.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Romance inacabado

Minha memória me trai.
O caso que lembro não é exatamente o que se deu - segundo pessoas cujas memórias também não são lá muito confiáveis.
Mas o que importa é a essência.


Ela era linda. E vaidosa. Adorava se arrumar para sair - mesmo que fosse apenas até a loja de armarinhos. 


Sempre um pó de arroz, um lápis de sobrancelha, um toque de batom, os cabelos negros bem penteados, saia e blusa impecáveis.


Pouco depois dos 20 anos apaixonou-se por um rapaz. Não sei se o pai não considerou-o à sua altura. Se achava que o pretendente era pobre, tinha pouca educação, ou se sua resistência se explicava por seu mau humor - sim, porque esse pai era mesmo muito azedo. 

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Solitude


 
Do not rely completely on any other human being.   

We meet all life's greatest tests alone.  

    Agnes Macphail, 
first woman elected to Canadian Parliament

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Pegadora atenta

Rica, bonita, empresária bem sucedida.
Só um problema: é ninfomaníaca.
Tem desejos incontroláveis pelos homens mais improváveis.
Pega altos, baixos, gordos, magros, carecas, cabeludos, zarolhos, intelectuais, semianalfabetos, o que pintar.
Em festas, embaixo de mesas, atrás de cortinas em salas de reunião.
Quando a bandeira começa a ficar muito desfraldada, tira uma temporada fora do país.

Um dia foi convidada para assumir um ministério em Brasília.
Ligou para uma amiga: o que fazer?
Recuse, recomendou a pessoa do outro lado da linha.
Brasília é província. As pessoas falam. E o que dizem sai nos jornais.
A pegadora pensou, pesou, e recusou.
No dia seguinte enviou um mimo para a amiga sensata.
Agradecimento por ter ajudado a manter intacto seu telhado de vidro.
E as duas nunca mais se falaram.

domingo, 17 de outubro de 2010

Mulheres de peito


Você ê mulher peituda, que encara a vida de frente? Atenção.

Segundo a Estimativa 2010 – Incidência de Câncer no Brasil, do Instituto Nacional de Câncer, Inca, mais de 49 mil mulheres terão tumores de mama até o final do ano.

O Inca lançou um folheto com sete recomendações para reduzir a mortalidade por câncer de mama no Brasil. Entre outras, considera como direito da mulher com nódulo palpável e outras alterações suspeitas receber diagnóstico em no máximo de 60 dias.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Deolinda, uma heroína de Angola no Brasil


Entre 1960 e 1961 viveu no Brasil uma jovem chamada Deolinda Rodrigues Francisco de Almeida. Angolana, era estudante de Sociologia no Instituto Metodista de Ensino Superior, em Rudge Ramos, na Grande São Paulo. Hoje o prédio, tombado como Patrimônio Histórico, guarda um museu. E Deolinda é nome de praça e avenida em Luanda – é uma das Heroínas cuja coragem na luta pela Independência de Angola, entre 1961 e 1975, é lembrada no Dia da Mulher Angolana, em 2 de março.

Deolinda é a mais conhecida das Heroínas de Angola por razões compreensíveis: escreveu um diário que foi preservado; era prima de Agostinho Neto, o herói da independência angolana; seu irmão Roberto de Almeida tornou-se político de realce na Angola independente; e sua história tem ingredientes marcantes.

domingo, 3 de outubro de 2010

Cala-te boca

“Se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim...” 

Na voz de Gal Costa, Folhetim, de Chico Buarque de Holanda, tem significado bem diferente da fórmula para a estabilidade matrimonial registrada em livro pela dona de casa americana Laura Doyle. 

Atenção: a fórmula da moça não é em favor da felicidade, da cumplicidade, do companheirismo; mas da estabilidade, da firmeza. E é simples: a mulher deve sempre dizer sim. Não deve discutir. Se quiser tranquilidade, deixará por conta do marido a direção do carro e do controle remoto da televisão. 

"Se ele perguntar sua opinião sobre alguma coisa, diga que ele é quem sabe. Isso aumentará sua autoestima", ensina no livro Surrended Wife, best seller do New York Times (há um livro seu traduzido para o português, com o título sugestivo Sim, querido). "A mulher pode ser uma lutadora forte e independente no trabalho, mas no lar deve admitir suas fraquezas, mostrar-se frágil e permitir que o marido assuma o comando. Casamento é como uma dança de salão: o homem dirige e a mulher acompanha."

Laura casou-se aos 22 anos. Dois anos depois estava à beira do divórcio. Achava que seu marido não era ambicioso no trabalho, que não sabia vestir-se, que dirigia mal. Em casa, ele passava horas na frente da televisão. Os dois não conversavam, não saíam juntos e raramente faziam sexo. Então ela resolveu elaborar sua chave para a harmonia. 


"A primeira coisa que fiz foi fechar a boca. Não foi fácil, mas fez uma enorme diferença. Depois descobri que se mostrasse confiança em meu marido, ele me daria o melhor de si. Os resultados foram rápidos e radicais. Enquanto eu mudava, ele se transformava no par perfeito."

O truque para evitar o divórcio é recomendado a mulheres que se casaram com homens de que gostavam, que respeitavam, e que passaram a lhes parecer desprezíveis. Também para as excessivamente controladoras, que não conseguem parar de corrigir ou ensinar seus maridos. 


Geoff Scobie, professor de psicologia da Universidade de Glasgow, concorda com as ideias da dona de casa que se tornou escritora. "Nossa sociedade produziu mulheres muito masculinizadas", diz. Segundo ele, as mulheres têm de voltar a cultivar a feminilidade.

Recentemente soube que o casamento de Laura Doyle andou estremecido... Talvez porque ela tenha ganhado um dinheirão com a publicação do livro e alcançado destaque maior do que o de seu marido, cujo nome é desconhecido... De todo modo, algumas das suas propostas (poucas, é verdade) são até razoáveis:

  • Deixe de tentar controlar seu marido. Comprando suas roupas, cuidando de sua alimentação e dizendo como deve se comportar, você será como uma mãe para ele. Isso esfria o romance.
  • Respeite o que ele pensa. Mesmo que você esteja certa de alguma coisa, tem de admitir que existam maneiras diferentes de ver as coisas e de resolver problemas. 
  • Preocupe-se apenas com sua própria felicidade e confie em seu marido no que diz respeito à felicidade dele. 
  • Admita que você é vulnerável. A mulher não tem de ser sempre forte e infalível.
Esta é uma versão de texto publicado na revista Veja quase dez anos atrás - http://veja.abril.com.br/240101/p_072.html
Para saber mais, visite o site www.surrenderedwife.com
Partes do livro Surrended Wife estão disponíveis no Google Books - http://books.google.com.br/books?id=BGPba6cyqmcC&printsec=frontcover&dq=%22laura+doyle%22+surrended+wife&hl=pt-BR&ei=6DKpTNKvM8Tflgf_nvjEDA&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=1&ved=0CCoQ6AEwAA#v=onepage&q&f=false

sábado, 25 de setembro de 2010

Tesão I

Ah, como ela era apaixonada por ele! Alto, claro, olhos verdes, sabidão, rico, educado... e simpático como poucos. Um achado!
Morena franzina, caipira, semi-analfabeta, Meio índia, meio selvagem, rústica. Ela simplesmente não era capaz de crer que ele a pudesse achar a mais atraente entre as mulheres. 
Os dois formavam um lindo casal, mas ela sentia-se inferiorizada e mordia-se de ciúmes do maridão que não sabia se seria capaz de manter. 
Armou então uma estratégia. Esperava-o todas as noites com as crianças no quarto, adormecidas, o jantar à mesa e... Nua em pelo, pronta para o sexo. Sua ideia era cansar o marido, satisfazê-lo de tal forma, que ele não tivesse energia para procurar aventuras fora de casa.
O truque funcionou por bom tempo, mas um dia ele cansou. Desapareceu.
Veio a depressão. Aos 40 anos de idade ela matriculou-se no ensino elementar de uma escola pública. Era uma figura excêntrica de uniforme e meia soquete no meio da meninada.
Anos depois, filhos criados, uma renca de netos, o marido voltou. Manso. Doce. Apaixonado? Vai saber. Ela abriu a porta, ele entrou e não saiu mais.

Catarata I


Quando o trânsito parou, a garota encostou-se ao carro velho, sujo, marcado por encontrões em postes, árvores e outros veículos.

– Tia, dá uma moeda, qualquer coisa, aquele chaveiro, o saco plástico...?

A motorista acelerou. Sequer baixou o vidro da janela. Preocupações demais, talvez. Ou a rotina entediante de encontrar sempre as mesmas pessoas, com os mesmos pedidos, sem sinal de mudanças.

Mas no correr daquele dia ocorreu algo incomum. A motorista se deu conta de que olhara para a menina, era capaz de descrevê-la com riqueza de detalhes. A saia amarela e a blusinha cor-de-rosa, ambas muito curtas e encardidas. A sandália de borracha, o cabelo desgrenhado, meio alourado, a mão suja na boca. 

E o olhar. Principalmente o olhar opaco. Era como se a garota – de 12, 15, 17 anos? – tivesse uma lente esbranquiçada colada na íris. Catarata precoce, quem sabe. Brilho não havia – de inteligência, vitalidade, vontade, humor, malandragem. Havia, isso sim, uma centelha de ódio mal disfarçada. 

A névoa nos olhos da motorista, sua própria catarata, começava a se esvanecer. O sentimento: um misto de medo e compaixão.

Escolhas I

- Eu poderia te amar!

Noite escura
Brilho de lágrimas nos olhos suplicantes.

Ela sentiu o frio do medo.
Virou-se e seguiu seu caminho,
sem amor e cercada de perigos,
mas livre do risco da esperança.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Santa ignorância!


Educada, acostumada a ler jornal todos os dias, a discutir política e fazer trabalhos comunitários, embora vivesse numa cidade minúscula aquela senhorinha espevitada tinha uma visão larga do mundo e da vida. Com andar apressado, mas sempre atenta a tudo que se passava ao seu redor, ela dizia, com ar reflexivo:

– Felizes são os ignorantes!

domingo, 12 de setembro de 2010

Cenas de casamentos I

Férias de verão.
No barco, ele, ela, três filhotes, e outras famílias.
Logo um garoto que viaja com o pai se enturma com os três pequenos do casal.
A mãe dos três brinca com ele, conversa com o pai.
Todos felizes, exceto o marido.
Parece incomodado com a companhia que encontra no barco. Arma careta mal humorada. Lança olhares atravessados para a mulher.
Ela passa a mão no short... Uma costura desfeita? Um botão caído? Zíper aberto? Nada. Passa a língua dos dentes em busca de restos de comida. Também não.
Aos poucos deixa de sorrir, de conversar, de brincar. A espontaneidade se esvanece.
Desembarque numa ilha. O marido segura a mulher pelo braço, deixa que os outros se adiantem.
- O que foi? Que é que eu estou fazendo de errado dessa vez?
- XCXscva!
- Cara, num to te entendendo! Fala direito! O que deu em você?
- O pai do menino, o cara do barco, é o XCXscva! Aquele guitarrista que eu adoro! O melhor!
- Ai! E você me torturou todo esse tempo porque eu estava brincando com o filho de um guitarrista? Um guitarrista que eu nem conheço?
- É que ele é demais e trata como gente comum!
Mais três horas de passeio.
Ela não conseguiu voltar a falar com o fulano, nem como gente comum nem como monstro da guitarra.
Em casa, chorou.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Olhar 45

Ele judeu húngaro imigrado no pós-guerra, vendedor de brindes. Ela presbiteriana, professora na rede pública do estado. Conheceram-se num ponto de ônibus, em tarde de chuva. Namoraram contra a vontade das famílias. Casaram sem renda que garantisse confortos mínimos. Logo tiveram filhos – dois, um após o outro. Moravam num apartamento minúsculo, as crianças sem espaço para brincar.

Ela deixou a roupa limpa sobre a cama para passar quando voltasse da escola. Ao chegar, deu com os garotos às gargalhadas, pulando no colchão e nas roupas com os pezinhos imundos.

Olhar fulminante. Parada geral.

Hoje os filhos são quatro. Os netos, sete. Todo o conforto. Mas ela não esquece aquele dia – a dor, o sofrimento, o desespero... E a veemência com que encarou os moleques, afinal tão divertidos, inocentes e ignorantes a respeito das dificuldades da família.

Olhar 45, bala de prata.

Alguém canta um verso assim, não?

O grito da independência

Homem com mais de 50 anos não sabe fazer arroz ou feijão. Bolo, então, nem pensar. Cozinha é local de alquimia misteriosa.

Tem medo de mexer na máquina de lavar roupa. Na lavanderia, só chega perto do tanque – e olhe lá.

Desmanchou a barra da calça? Despregou o botão da camisa? Ah, melhor descartar a roupa!

Criança chorando? Mamadeira? Troca de fraldas? Se tiver netos, nunca topará ficar sozinho com eles!

Mulher é bicho esperto. Rainha do lar por séculos. Saber é poder.

Um dia ele descobre ser capaz de fazer arroz soltinho. Feijão com caldo grossinho. Carnes variadas ao forno. Legumes na manteiga. Tudo em 20 minutos. Refeições de gourmet sem mistério ou sofrimento.

Independência, afinal!!