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terça-feira, 19 de maio de 2015

Paixão além da vida

Esta é uma história de amor de uma vida.
Natália era uma de quatro filhas. Tinha dez irmãos. Nasceu numa vila, na Itália, durante a Primeira Guerra Mundial. Como era muito difícil ganhar dinheiro naquele vilarejo, seu pai tomou um navio em direção ao Brasil. Trabalhava o ano inteiro vendendo lenha, fazendo pão, o que fosse, e a cada doze meses voltava para visitar a mulher e os filhos que deixara na Itália. A rotina era desgastante mas tinha de ser mantida porque, afinal, filhos de italianos tinham de ser italianos. 
Só o risco de ter de viver a experiência de uma nova guerra fez com que as coisas mudassem. Quando Natália, a caçula da turma, completou sete anos de idade, pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial, emigraram todos. O Brasil era um país pacífico, os negócios iam bem, e aquela familiona pode se acomodar tranquilamente num enorme casarão em um bairro povoado por compatriotas, na cidade de São Paulo.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Meninas não choram

Era uma menina mimada, nascida na segunda metade do século 20, quando as dificuldades dos tempos de guerra já eram apenas sombras nas lembranças dos mais velhos.
O país entrara numa ciranda de crescimento, o dinheiro era farto, os automóveis já eram acessíveis à classe média. Morava na cidade grande, numa casa assobradada, numa rua arborizada, e todos os seus desejos eram satisfeitos.

sábado, 16 de maio de 2015

Parideira

Num recanto perdido no interior de Angola, uma mulher sem idade, atarracada e forte, toda respingada com a terra usada para fazer tijolos de adobe destinados à sua nova casa, me recebeu com um sorriso largo.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Porcelana trincada

O primeiro ruído que se ouviu foi o de vidro quebrado, do copo que se estilhaçou no chão. Depois vieram outros, de cadeiras arrastadas, de vozes, muitas vozes. Os sinais não eram nada bons. Algo de desagradável acontecia no andar de cima, no apartamento do andar de cima.

domingo, 10 de maio de 2015

Casamento na terra e no céu

O dia se tornou noite e era ainda mais escuro no interior daquela floresta em que os galhos se entrelaçavam. Eclipse total do sol - casamento de sol e lua no dia no noivado de Luna e Sun.
Não havia sido planejado. Os dois namoravam há cinco anos, resolveram ficar noivos em um impulso, aproveitando o encontro da família no Natal, e para cúmulo da coincidência, os dois, com nomes tão incomuns, uniram-se de fato no céu e na terra no Natal seguinte.
Isso aconteceu num momento especial, daqueles em que os jovens parecem dizer aos mais idosos que não precisam se preocupar - tudo vai ficar como antes, inclusive as tradições mais minúsculas, como o recheio do pastel do ravioli.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

O tempo e o espaço

Ah, eu lembro quando essa casa era repleta de gente. Quando as pessoas falavam e riam sem parar, todas ao mesmo tempo. Quando sentavam-se à mesa, mais do que para comer, para comungar, para compartilhar histórias, experiências.
Naquele tempo eu nunca me sentia vazia. Sempre havia quem se acomodasse sobre as minhas pernas, entre os meus braços. Assim nos aquecíamos mutuamente.

Noite de mistério

Se você estivesse ali naquela noite, certamente concordaria comigo. Acreditaria que existem forças para além do nosso entendimento. Admitiria que não temos controle absoluto sobre nosso destino e que o inesperado, o inexplicável, acontece.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Amor de um dia

Maiara caminhava pela rua do porto como quem caminha pelo corredor de casa - estava em seu ambiente, conhecia todas as pedras do caminho, os buracos, os lugares escorregadios. Short curtinho, sandália de salto alto, batom vermelho, cabelos soltos. Queria diversão e sabia que ali encontraria algo.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Sabedoria ancestral

Maria Aurélia foi diferente de suas amiguinhas desde muito pequena. Gostava de brincar sozinha. Ficava quietinha por muito, muito tempo, observando uma coisa qualquer, uma formiga caminhando ou uma folha de árvore balançada pelo vento. Via coisas que os outros não notavam, como o reflexo do sol na parede, que formava uma letra A perfeita. Quando perdiam algo, logo pediam a Maria Aurélia que procurasse, pois ela encontrava, mesmo que fosse um cisco num carpete.
Era linda, de cabelos escuros e olhos verdes. Talvez por isso, talvez por ter sido sempre muito elogiada, fechou-se em copas. Era tímida no contato com as pessoas. Gostava de plantas e animais. Com esses entendia-se perfeitamente. Cachorros, gatos, pintinhos, todo tipo de bicho se sentia seguro ao lado de Maria Aurélia, que conversava com eles com uma voz muito mansa. Assim, quando ia pela rua, ela nunca estava só. Sempre era acompanhada por uma fileira de animais que brincavam de trançar entre suas pernas.
Com as plantas ela era um pouco mais dura. Mas foi nessa área que sua esquisitisse se revelou milagrosa.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Pura Maldade

Era um homem bom e gentil. Aliás, Gentil era seu nome. Estava sempre pronto a ajudar, servir, apoiar. Professor, leitor compulsivo, tinha sempre histórias para contar, e todos adoravam ouví-lo. Além disso, distribuía abraços. Apertados, afetivos. Era um caramelo. Um doce de coco. Não havia quem não gostasse de si.
Um dia, sua boina preta de riscas brancas foi encontrada no piso de um estacionamento, em meio a uma enorme poça de sangue. O mar que batia forte na amurada e respingava por todo lado não era capaz de limpar aquela violência.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Português, brasileiro ou africano?


   Li hoje Acordo Desortográfico e pus-me a pensar.


   Acabo de recolocar na estante Caim, do português Saramago. Sua leitura não teria o mesmo sabor se o texto estivesse em brasileiro. O mais recente livro do escritor angolano Pepetela foi editado em Portugal, lançado em Angola e está a ser traduzido antes de ser disponibilizado nas livrarias brasileiras. Uma pena.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Fado

Ela era assim. Menina de pele branca lisinha e cabelos negros, tímida, sempre de olhos baixos. Nascida e criada no interior mineiro. Vestido de babado. Sapato de boneca.

Aos 16 anos, apaixonada por um vizinho, resolveu casar. O pai se enfureceu, a mãe chorou, mas não teve remédio. O casório foi na igreja, com véu e grinalda, quase toda a cidade presente.

Os dois se mudaram para uma casa com cerca branca de madeira, jardim florido, janelas que se abriam para a rua e deixavam a brisa entrar. Até cachorro arrumaram, pra completar o cenário.

Seis meses se passaram. Num sábado, enquanto ela preparava o almoço, ele saiu de motocicleta para buscar ração logo ali pertinho. Andou dois quarteirões. Foi pego por um caminhão.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Romance inacabado

Minha memória me trai.
O caso que lembro não é exatamente o que se deu - segundo pessoas cujas memórias também não são lá muito confiáveis.
Mas o que importa é a essência.


Ela era linda. E vaidosa. Adorava se arrumar para sair - mesmo que fosse apenas até a loja de armarinhos. 


Sempre um pó de arroz, um lápis de sobrancelha, um toque de batom, os cabelos negros bem penteados, saia e blusa impecáveis.


Pouco depois dos 20 anos apaixonou-se por um rapaz. Não sei se o pai não considerou-o à sua altura. Se achava que o pretendente era pobre, tinha pouca educação, ou se sua resistência se explicava por seu mau humor - sim, porque esse pai era mesmo muito azedo. 

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Solitude


 
Do not rely completely on any other human being.   

We meet all life's greatest tests alone.  

    Agnes Macphail, 
first woman elected to Canadian Parliament

sábado, 30 de outubro de 2010

Democracia de chorar


O ônibus oferece tratamento de dentes gratuito.
Entenda-se: extração.

A pessoa entra numa fila, mostra o título de eleitor e marca hora para arrancar os dentes que doem.
O compromisso: votar no candidato X – nome e número impressos num santinho.

Não adianta explicar que o voto é secreto, que, se for o caso, é possível aproveitar a oportunidade sem se comprometer:

–Não sabia em quem votar, então voto em quem cuida dos meus dentes de quatro em quatro anos - ela explica

Semianalfabeta.
Paraibana vivendo em São Paulo há mais de 20 anos.
Filhos com ensino médio completo.
Todos com o mesmo candidato – o que está deixando a mãe banguela.

É assim. Nada muda. Com ou sem escolaridade.

Democracia em terra de povo ingênuo, ignorante, honesto, leal. E pobre.
Há que criticar a democracia ou a situação do povo?

Lembro Chico e Vinícius
...
E aí me dá uma tristeza
No meu peito
Feito um despeito
De eu não ter como lutar
E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar.

sábado, 23 de outubro de 2010

A nova classe média

Saída de alunos em escola pública da periferia de São Paulo
Congestionamento de carros velhinhos mas lustrosos

São mães motorizadas que buscam seus filhos
Como 20 anos atrás só se via em escolas particulares dos Jardins

sábado, 25 de setembro de 2010

Tesão I

Ah, como ela era apaixonada por ele! Alto, claro, olhos verdes, sabidão, rico, educado... e simpático como poucos. Um achado!
Morena franzina, caipira, semi-analfabeta, Meio índia, meio selvagem, rústica. Ela simplesmente não era capaz de crer que ele a pudesse achar a mais atraente entre as mulheres. 
Os dois formavam um lindo casal, mas ela sentia-se inferiorizada e mordia-se de ciúmes do maridão que não sabia se seria capaz de manter. 
Armou então uma estratégia. Esperava-o todas as noites com as crianças no quarto, adormecidas, o jantar à mesa e... Nua em pelo, pronta para o sexo. Sua ideia era cansar o marido, satisfazê-lo de tal forma, que ele não tivesse energia para procurar aventuras fora de casa.
O truque funcionou por bom tempo, mas um dia ele cansou. Desapareceu.
Veio a depressão. Aos 40 anos de idade ela matriculou-se no ensino elementar de uma escola pública. Era uma figura excêntrica de uniforme e meia soquete no meio da meninada.
Anos depois, filhos criados, uma renca de netos, o marido voltou. Manso. Doce. Apaixonado? Vai saber. Ela abriu a porta, ele entrou e não saiu mais.