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quinta-feira, 7 de maio de 2015

Janela de oportunidade

O lugar em si não era muito amigável. Não havia plantas, flores, nada colorido. Não havia sons, ruídos que indicassem vida, a existência de homens, animais, insetos, um mosquito que fosse. Era como o nada e ela não sabia como chegara ali.
Lembrava de ter parado num cruzamento. Voltava do trabalho dirigindo seu carro. No rádio, os Rollings Stones cantavam I can get no satisfaction. O trânsito não estava ruim e ela pensava na roupa que vestiria no jantar que havia marcado para mais tarde, com amigos.
Depois ouviu um estrondo. Vidro quebrado. Tudo ficou vermelho. Quando deu por si estava naquele oco, naquele vazio que não era deserto e que de alguma maneira lembrava sua vida no dia a dia. 

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Sangue no paraíso

A cidade era uma loucura. Você certamente sabe o que eu quero dizer com isso. Mais carros do que ruas. Mais passageiros do que ônibus. Mais prédios do que casas. E maternidades lotadas.
Ali ela viveu toda a sua vida de quase meio século, até que um dia resolveu virar o jogo, mudar de time, puxar o freio de mão.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Pra ficar esperto


Há alguns anos jargões de cientistas viraram lugar comum em conversas de botequim, de salão de cabeleireiro, de pátio de escola – efeito estufa, mudanças climáticas, emissões de carbono, tecnologias limpas... 

Não sem razão. É só sair de férias para aquela praia de sempre e perceber a alta exagerada da maré, a redução da faixa de areia. Ou ter de vestir casaco e cachecol em plena primavera. Impossível ignorar as transformações que ocorrem por todo lado.

O pavor com o fim do mundo já esteve mais falado, mas não desapareceu. Tem muita gente reciclando lixo, usando aquecedores solares, tomando pequenas medidas de economia e limpeza. O problema, no entanto, é maior do que as providências que têm sido adotadas. 

Sair à rua numa grande cidade é sempre um choque. E o que dizer da indescritível experiência de fazer uma viagem de avião – com a inevitável passagem pelo aeroporto? Gente demais, correria demais. Tudo o que é demais é demais. Para a nossa própria paciência e, ao que tudo indica, também para a tolerância da natureza.

Então cientistas resolveram fazer alguns ensaios, misturar num mesmo tacho ingredientes como crescimento e envelhecimento da população, ritmo de urbanização, índices de produtividade e aceleração econômica. No artigo Global demographic trends and future carbon emissions, que acabam de publicar na revista Proceedings of National Academy of Sciences, dizem que não pretendem que suas descobertas levem à tomada de medidas, mas que sirvam para preparar as pessoas para o que virá. Todos devem ficar espertos.

Argh! Péssimo sinal. Em todo o caso, eles trazem boas e más notícias. 

Primeiro as más. Se o ritmo de crescimento atual continuar, haverá mais de 3 bilhões de pessoas no mundo em meados do século. A maior parte delas em centros urbanos. E somente isso provocará aumento de 25% nas emissões de dióxido de carbono.

O envelhecimento da população, ao contrário, é uma notícia positiva, pois os mais velhos consomem menos, exercem menor pressão sobre a produção e, portanto, sobre o crescimento econômico. O envelhecimento pode reduzir níveis de emissões em até 20%.

Pensando sobre as percentagens. 
Quase que elas por elas, poderíamos ter cidades de velhinhos e jovens curtindo a experiência bucólica da vida em ambiente rural sem a tecnologia posterior à revolução industrial... Tudo em nome da nossa própria segurança, claro!

A foto, feita por satélite pela Nasa, mostra a iluminação noturna no mundo – que cresce sem parar.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Fim de ano

Não tem jeito
Você pode não querer viajar
Pode recusar-se a presentear quem quer que seja
Mas supermercado vai ter de fazer
E mais cedo ou mais tarde terá de ir ao banco
Recomendo que saia em dia de chuva
No meio da tarde
Quando a multidão se esconde
Que planeje seus passos cuidadosamente
E sempre esteja pronta para imprevistos
Porque é primavera
E como os insetos, as gentes enlouquecem
Se multiplicam
Te invadem
E então, haja equilíbrio para manter o pescoço ereto
O olhar brilhante
A vontade firme
Se bobear, você sai de cena em prantos
Por baixo da porta

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Boa vida

Quem anda desanimado ao sair de casa com a perspectiva de enfrentar trânsito, buzinas, filas por todos os lados, e sujeira, muita sujeira, não caia na besteira de pensar na alternativa da casa no campo. Isso é poesia do tempo em que Belchior não tinha rugas nem crises de sumiço. Coisa pra moçada bicho grilo.

Cidades são boas soluções para uma vida confortável e saudável, com contato social e estímulos culturais. A questão é escolher. Além das interioranas, grandes centros urbanos têm superado problemas provocados pela superlotação. O pulo do gato: administadores que vendem suas cidades como produtos, objetos de desejo – e, ao atrair investimentos e empregos, melhoram o estado geral das coisas. 

No Brasil, o Pelourinho, em Salvador, na Bahia, é caso exemplar. O casario dos séculos XVI ao XIX havia se transformado em um amontoado de cortiços em ruínas. A transformação começou com a limpeza e a reforma de 600 casarões que foram ocupados por bares e restaurantes, lojas, consulados e escolas. Depois, aos poucos, chegaram moradores. A área voltou a ser valorizada e frequentada por artistas e intelectuais.

 
Curitiba, no Paraná, é a sétima cidade mais populosa do Brasil e aquela onde se encontram os melhores indicadores de qualidade de vida – ensino excelente, ótimo sistema de transporte, variada e rica vida cultural, sistema de transportes impecável, e a maior área verde por habitante do país. Foi planejada para ser local de vida boa.
No mundo, é notório o caso de Londres. Deixou de ser centro industrial. Há décadas, todas as semanas acontecem 1.500 eventos culturais na cidade. Os monumentos foram limpos, o Rio Tamisa foi despoluído e em suas margens há caminhos para ciclistas. Para completar, criou-se uma organização dedicada a marquetear o paraíso londrino.

Nova York chegou a ser recordista mundial em criminalidade. A prefeitura cortou impostos, reurbanizou becos e pontos turísticos e atraiu empresas de serviços. Estão na cidade 49 das 500 maiores empresas americanas. Os turistas chegam às dezenas de milhares todos os anos – mesmo com o terrorismo que se faz acerca dos riscos de terrorismo por ali.

Quer dizer, o negócio é abrir o mapa, passear pela internet, botar o pé na estrada, experimentar alternativas ... E achar aquela cidade onde seja possível curtir os amigos, os discos, os livros, e muito, muito mais.