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segunda-feira, 18 de maio de 2015

Meninas não choram

Era uma menina mimada, nascida na segunda metade do século 20, quando as dificuldades dos tempos de guerra já eram apenas sombras nas lembranças dos mais velhos.
O país entrara numa ciranda de crescimento, o dinheiro era farto, os automóveis já eram acessíveis à classe média. Morava na cidade grande, numa casa assobradada, numa rua arborizada, e todos os seus desejos eram satisfeitos.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Una aventura en la Ciudad Blanca

En el sitio de la municipalidad de Arequipa, Perú, está una citación: "Arequipa un oasis entre el desierto y la montaña; un campo verde de todos los matices, entre el bermejo austero del desierto y el misterioso violeta de los cerros gigantes."

Fue Augusto Sánchez Guillén, con sus ojos dulces bajo cejas gruesas, que nos presentó a la "Ciudad Blanca", así llamada por sus hermosos edificios constituidos por una roca volcánica de color claro. El tenía 68 años cuando nos conocimos en Arequipa, Perú, en 2007.  


Descendiente de italianos y españoles, Profesor de Historia jubilado, Economista y Administrador Público, el ocupaba un cargo en el gobierno, pero pasaba poco tiempo en la oficina. Visitaba e conversaba con la gente. Niños, jóvenes, adultos y ancianos conocían el profesor, y siempre tenían algo que decirle. Guillén escuchaba atentamente. “Nadie es mejor que otro”, afirmaba. “Así es”.


Guillén nos presentó a los residentes locales y a una obra que cambió la vida e la economía de la región. El señor Guillén nos llevó a conocer un símbolo del paisaje de Arequipa, el Misti, volcán inactivo con circa de 5,800 metros de altitud y la cresta cubierta de nieve.

La ruta de acceso al Misti pasa por un parque de preservación, donde se puede observar  vicuñas, alpacas y llamas. En la altitud, la vegetación es escasa y los animales cruzan la carretera como quisieran ver, también ellos, a los visitantes.




Hasta los años 1980, los arequipeños vivían parte del tiempo sin energía. Augusto Sánchez Guillén trabajó en la obra de construcción de la central hidroeléctrica Charcani V, ubicada en las faldas del volcán Misti, durante ocho años, y recuerda lo que fue esta aventura.


 La central fue construida a una altitud de 3,800 metros. La ejecución requería la excavación de un túnel en el interior del Misti, en que se repetían temblores hasta 30 veces por día y donde la temperatura llegaba a 18º bajo cero. Se construyó asimismo un túnel de 11 km que permitió generar una caída de agua de 690 metros hasta las turbinas. Para los trabajadores, esta fue una prueba de coraje y determinación.


El impacto del suministro de energía estable fue inmediato y positivo. La central hidroeléctrica iluminó la ciudad. Se desarrolló la agroindustria e la industria metal-mecánica en los alrededores de la ciudad. La gente empezó a llegar, a inaugurar nuevos barrios y centros comerciales. En las tierras donde no vivía nadie se encuentran actualmente asentamientos con miles de familias. 




La Ciudad Blanca tiene otras atracciones, además de Misti y de la arquitectura, una fusión de características europeas y autóctonasEs indispensable probar los platos típicos, como el riquísimo chupe de camarón, el cauche de queso y el rocoto relleno. Pero cuidado: si no te gusta la comida picante, no le pida al rocoto relleno!

Más una curiosidad: Arequipa fue fundada en el sitio de una antigua ciudad Inca. Los arequipeños, de algún modo, no se sienten como los demás peruanos. La influencia de los españoles en su cultura non fue significativa como en otras partes del país.


La población es orgullosa de su historia y de la resistencia de su cultura. Así, por tradición, los arequipeños llaman a su tierra República Independiente de Arequipa, mantienen moneda propia e tienen, incluso, pasaporte concedido a título honorífico para aquellos que son considerados bienvenidos.

Guardo con cariño el pasaporte. Pienso que volví de Perú un poco arequipeña.



Viajé a Arequipa para escribir un informe sobre las actividades sociales en 28 años de trabajo de Odebrecht Perú Inginiería y Construcción. Este informe está en Internet.  
Foto de Augusto Sánchez Guillén: Roberto Rosa

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Delícias russas

Estando ou não na Rússia, se você gosta de experimentar sabores e consistências diferentes, prove varenik.

Lembra ravióli, só que a massa é de batata. Poderia ser nhoque, mas tem recheio. Ou seja, é um prato diferente. E delicioso.

É possível encontrar vareniks em rotisseries e restaurantes russos no Brasil. Mas como são raros, e não é assim tão difícil preparar o prato em casa, aqui vai a receita:

Cozinhe e passe pelo espremedor meio quilo de batatas. Misture duas colheres de queijo ralado, dois ovos e uma pitada de pimenta-do-reino e amasse bem.

Para o recheio, você pode fazer um refogado de carne moída com tomate, ou amassar meio quilo de queijo fresco com um ovo. Ah, com espinafre também fica muito bom!

Estique a massa, corte com um copo ou em quadradinhos, coloque o recheio e feche cada um, como se estivesse fazendo pastéis. 


Mergulhe os pasteizinhos na água fervente salgada por alguns minutos, retire com a escumadeira, arrume numa travessa, cubra com manteiga derretida e sirva.

É bom demais.

Sim, em matéria de delícias, é preciso lembrar ainda dos mingaus russos. São feitos com cereais variados. Compõem um café da manhã e tanto. Sem café. Esses não têm mistério. São como mingaus para bebê, mas muuuito mais grossos. Quanto aos cereais... Bem, temos de nos contentar com o que encontramos no Brasil. Os russos têm uma infinidade deles.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Luxúria e surrealismo

Chegamos a uma cidadezinha do interior da Holanda cansados da longa viagem de carro, loucos por um bom banho e uma comidinha quentinha. O que não sabíamos é que no dia 30 de abril a Holanda celebra o aniversário da rainha Beatriz. O Dia da Rainha, Koninginnedag, é data de comemoração da união nacional. Assunto sério. Feriado nacional. Tudo fica tingido da cor da realeza – cor-de-laranja – de roupas e cortinas de casas até doces, bebidas...

Havia festa por todo lado. Hotéis e restaurantes lotados. Bailes. Era como se tivéssemos desembarcado em outro planeta. 

Bem, mas encontramos um hotel. Só o banheiro do apartamento, com duas banheiras e uma enorme área livre, era do tamanho da minha casa em São Paulo. E aquilo era apenas o começo. Para jantar, a alternativa era um castelo medieval, um restaurante da grife Relais & Châteaux, isolado numa estrada plana e no meio de um campo coberto de relva. Coisa de filme.

Primeiro um vinho do porto. Depois, o menu de degustação. Dez pratos (todos minúsculos, diga-se, afinal tratava-se de degustação...).  

Cada prato era acompanhado de um vinho aberto à nossa frente, delicadamente derramado nas taças, e retirado das nossas vistas. Um sorbet e o prato seguinte, com uma nova garrafa de vinho. A sobremesa e champagne. Tudo zero quilômetro, sempre subaproveitado. O que será que faziam com o resto das garrafas de todos aqueles vinhos maravilhosos? Vai saber...

Ao final, charuto e conhaque na sala ao lado, com sofás de couro e lareira aquecendo as paredes de pedra.

O espetáculo completo de luxúria e surrealismo deve ter durado umas quatro horas. Ri aquele riso histérico e incontrolável de quem não acredita no que está acontecendo – e levei muitos cutucões por baixo da mesa para me comportar nos conformes.  

No dia seguinte, 1º de maio de 1994, ao acordar, vi na TV o acidente que matou Ayrton Senna no Grande Prêmio de San Marino, em Ímola, na Itália. Notícia em holandês. Consoantes demais. Não entendi palavra até chegar a Frankfurt, para o embarque para o Brasil. Morrera o maior piloto brasileiro de Fórmula 1. E eu nem tentara bancar a repórter.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

O grito da independência

Homem com mais de 50 anos não sabe fazer arroz ou feijão. Bolo, então, nem pensar. Cozinha é local de alquimia misteriosa.

Tem medo de mexer na máquina de lavar roupa. Na lavanderia, só chega perto do tanque – e olhe lá.

Desmanchou a barra da calça? Despregou o botão da camisa? Ah, melhor descartar a roupa!

Criança chorando? Mamadeira? Troca de fraldas? Se tiver netos, nunca topará ficar sozinho com eles!

Mulher é bicho esperto. Rainha do lar por séculos. Saber é poder.

Um dia ele descobre ser capaz de fazer arroz soltinho. Feijão com caldo grossinho. Carnes variadas ao forno. Legumes na manteiga. Tudo em 20 minutos. Refeições de gourmet sem mistério ou sofrimento.

Independência, afinal!!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Mãe de primeira, segunda, terceira viagens...

Esse texto também poderia ter como títulos Pediatras Perigosos, ou A Sabedoria das Tias. As histórias se passaram com crianças, tias e pediatras diferentes. São algumas, de uma coleção enorme. E são reais.

O pediatra foi minucioso. Bebês são frágeis. Nunca deixe que ninguém toque em seu filho sem antes lavar as mãos com sabão e depois passar álcool. Todo o ambiente em torno da criança deve ser esterizilado, asséptico. Amamentação no peito até um ano. Aos seis meses, começam as papinhas – sempre feitas com vegetais comprados na feira do dia (nada de supermercado, que estoca coisas congeladas).
Tudo compreendido, o bebê seguiu para casa para ficar isolado e limpíssimo. Um dia, num passeio ao sítio, a mãe se distraiu. A criança estava com uma tia experiente. Por via das dúvidas... Foi dar uma espiada. Bebê no chão de terra, chupando jabuticaba, com a cara roxinha e rindo à solta.
– Ele precisa viver, minha filha!
Viveu. Forte e saudável. E 30 anos depois ainda adora jabuticabas.

Ele era faminto. Mamava até se esbaldar. Bebê gordinho, de pele lisinha; sempre risonho e bem humorado. Um dia deu de chorar. Muito.
O pediatra disse que o comportamento era normal, que havia bebês deprimidos. Paciência. Então, durante a visita de uma tia, essa criança se esgoelou no berço.
– Minha filha, ele está com fome!
Foi só complementar a mamada do peito com uma mamadeira que o bebê voltou a sorrir. Deprimido nada: ele estava faminto!
Sempre foi assim. Adolescente, adulto, sempre perde o humor quando não se alimenta direito.

A criança sentada no cadeirão, na sala de jantar. Ainda não comia sozinha – o pediatra dissera que se alimentaria melhor se a comida lhe viesse à boca... A tia se ofereceu para a tarefa. Minutos depois, uma bronca:
– Minha filha, além de não comer sozinho ele não mastiga! Você precisa ensinar!
E toca mastigar, para o bebê imitar os movimentos e não engolir a comida como uma massa de concreto...

Férias na casa da tia. Sempre uma festa. Todos se preparam e embarcam felizinhos no carro. No final da temporada, a grande novidade:
– Mãe, a tia ensinou a gente a comer de garfo e faca!

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Pescados Capitales




O título desse texto é o nome de um restaurante em Lima, no Peru. Fomos para lá como um refresco, depois de termos enfrentado uma maratona de viagens pelo país. Comer bem é sempre bom. O ambiente é arejado e claro, com telhado de palha trançada, muito verde e madeira rústica. O cardápio é um livro. Os pratos são classificados por tipo de pecado: santa ira, luxúria freudiana, sentimentos de culpa... E por aí vai. O que pedir?

Primeira coisa que aprendemos: pisco se toma bom, e puro. Se preferir pisco saur, peça sin uevos (na receita con uevos o pisco é batido com clara de ovo...). Estávamos Bob, Samuel e eu. Os dois comportadíssimos. Eu observando para ver se descobria o prato mais pedido na casa.

Foi assim que vi, numa mesa, três senhoras que já haviam terminado o almoço, mas continuavam tomando pisco a hablar e hablar. Era com elas que eu iria resolver meu problema. Levantei, me apresentei, e expliquei que queria uma recomendação – saber o que de melhor se poderia provar entre os pecados que o cardápio oferecia.

Gabriela, uma das minhas novas amigas, logo chamou o maître e encomendou “aquele peixe, como eu gosto, para a senhora”. Nunca soube que peixe era, mas não importa. A questão estava encerrada. Sentei. Soube que Gabi viera ao Brasil quando jovem, que ficara encantada, que guardava belas lembranças. Bem que apresentei meus amigos às três peruanas, mas eles preferiram sair logo da vizinhança...

Nosso almoço correu assim. Bob e Samuel ficaram borocochôs – os pratos que escolheram não tinham nada de especial. O meu era lindo e apetitoso. À saída, as três, que permaneciam no restaurante, nos propuseram um brinde com um copito de pisco produzido em Ica, a terra de Gabi.

Conversamos, eu e Gabriela, por no máximo meia hora. Isso em 2007. Nunca mais deixamos de nos corresponder por email.

Se ficar curioso, dê uma passeada pelo site do restaurante:
http://www.pescadoscapitales.com/

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Caldo de Camarões

Longo, curto, com mais ou menos detalhes, um causo com cada título ou várias passagens que componham o quadro de uma pessoa ou um lugar. 
Gente Boa II, a história de Belo, foi reescrita e republicada quatro vezes até que ficasse mais ou menos no jeito. 
Agora, faço a mesma história de duas formas, e ambas ficam no ar. Esta é uma segunda versão de Atleta da Cozinha Mexicana. Escrever é isso. Reformar, reorganizar, repensar, cortar palavras.


Era o melhor caldo de camarões que se poderia provar no México. Quiçá no mundo. Um néctar para duas mulheres sequestradas, presas e incomunicáveis na cidade de Gustavo Diaz Ordaz, no meio do deserto de areias escuras de Sinaloa. Ao menos era assim que nos sentíamos.

O cozinheiro, um homem alto, espigado, com um avental branco improvável naquela cidadezinha, sorria feliz. Nosso deleite era indisfarçável. Repetimos, evidentemente, para saborear de verdade, porque o primeiro prato fora um matambre (embora não fosse churrasco uruguaio...).

Antes, tínhamos até discutido a possibilidade de ir a uma das centenas de barracas de rua que vendem ostras negras enormes, anunciadas em cartazes de papelão, tão famintas estávamos. Mas um rapaz nos explicou que aqueles frutos do mar eram contaminados. E foi ele que nos convidou para jantar no restaurante do tio – o tal que nos servia o maravilhoso caldo de camarões. Era um professor de Educação Física aposentado. Sempre gostara de cozinhar. Montara seu restaurante no quintal de casa, entre vasos de flores e árvores.

Não sabíamos quem era o rapaz. Aliás, nem sabíamos o que fazíamos ali depois do anoitecer. Nosso projeto fora dar um pulo à cidade, visitar uma região de assentamento de agricultores sem-terra, e dar no pé rapidinho. Mas o dia foi passando... E nos vimos sem condução que nos levasse de volta à Cidade do México, sem conhecidos a quem pedir orientação, exaustas depois de muitas andanças e com um calor danado.

Bem, não estávamos sequestradas. O rapaz era um engenheiro agrônomo que vira nossas entrevistas. Também não estávamos presas. Alguém nos levaria ao hotel na capital. Acontece que os mexicanos percebem o tempo de forma diferente dos brasileiros. Algo como a diferença entre britânicos e brasileiros. Pontualidade é um conceito cultural, geográfico, sei lá, é muito variável... Os mexicanos nunca ficam esbaforidos. Se disserem que lhe virão buscar “ahorita, ahorita” prepare-se: pode ser que cheguem num minuto ou... No dia seguinte.

Isso ficou claro logo cedo. Quando desembarcamos na cidade, encontramos o líder de uma cooperativa de agricultores, Emilio Martínez Victoria, um campesino, como se apresentou, que se ofereceu para nos levar ao seu sítio em Fuerte Mayo. Garantiu que era bem pertinho, logo ali. Sacolejamos por mais de uma hora por uma estrada de terra mal batida.

Depois, para Emilio demonstrar o funcionamento do sistema de irrigação que implantara, foi outra novela e meia. Estávamos encantadas, gravávamos e fotografávamos tudo. O sol já começava a se por quando notamos, ao voltarmos à caminhonete, que não seguíamos em direção à cidade: nosso anfitrião resolvera nos presentear com uma subida à serra, para que tivéssemos a dimensão do que é El Carrizo, no vale do Rio Fuerte: uma imensidão de pequenos sítios produtivos. Que paisagem! Ainda mais ao sol poente!

Assim, entre estradas, sítio, deserto, serra e muita conversa, o dia passou.

Amanhecêramos com um susto. Luciana fora ameaçada de prisão porque fotografara crianças na saída de uma escola. Chegou à Prefeitura escoltada por um policial convicto de que pegara uma criminosa em ação. Mas México e Brasil têm lá suas semelhanças: eu já conhecera o prefeito e Emílio, que conversaram com o miliciano... Luciana saiu livre e com suas fotos.

Anoitecêramos numa cidade adormecida. Mas, “ahorita, ahorita”, surgiu outro engenheiro em seu corcel branco que nos levou até a Cidade do México. Um belíssimo chapéu que Luciana havia comprado no correr dessa aventura foi esquecido no banco traseiro da caminhonete. Digamos que ficou na conta do caldo de camarão... Que lamentavelmente não fotografei...

A reportagem resultante dessa viagem foi publicada na Revista Odebrecht Informa e pode ser lida no link
(http://www.odebrechtonline.com.br/materias/00801-00900/883/).

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Atleta da cozinha mexicana

O Estado de Sinaloa, no México, é uma região semiárida, na qual a temperatura frequentemente atinge 45ºC e as chuvas são raras. Fica na costa oeste do país, no Golfo da Califórnia. A capital é Culiacán, mas esta não chegamos a ver. O que nos interessava era conhecer os assentamentos de agricultores implantados numa iniciativa de reforma agrária em áreas mais distantes – os mais importantes em El Carrizo, no vale do Rio Fuerte. E foi para lá que Luciana de Francesco e eu seguimos, atrás de uma reportagem que jamais fora publicada no Brasil.

Viajamos de carro até uma cidadezinha próxima, Gustavo Diaz Ordaz. O motorista nos deixou diante do prédio da Prefeitura. Enquanto eu entrava para me apresentar, explicar o que precisava e pedir apoio, Luciana resolveu dar um passeio. Em frente ao prédio estava armada uma feira, prato cheio para uma fotógrafa. Logo ao lado havia uma escola, com meninas uniformizadas sentadas sobre o muro. Luciana fotografou-as...

Logo chegou à Prefeitura, em pânico, acompanhada de um policial. No México, já em 2006, era ilegal abordar crianças... Pior fotografá-las... O índice de sequestro de crianças era muito elevado, e a polícia levava a sério a tarefa de protegê-las. Mas a conversa com o prefeito tinha sido boa, ele falou com o policial, mostramos nossos passaportes e tudo se resolveu.

Dali fomos a uma espécie de Casa do Agricultor, onde engenheiros nos apresentaram a um líder de uma cooperativa de assentados que vivia em El Carrizo desde 1965. Emilio Martínez Victoria, um campesino, como se apresentou, um agricultor familiar de 48 anos de idade, era simpaticíssimo. Logo se prontificou a nos levar para conhecer seu sítio em Fuerte Mayo. E toca entrar novamente numa caminhonete e viajar mais de uma hora em estrada de terra.

O que vimos valeu o esforço. Muita terra plantada com um sistema de irrigação rudimentar, instalado pelos próprios agricultores que cavaram valas do rio aos sítios localizados em areas desérticas, e puseram canos plásticos embocados nessas valas. De tempos em tempos, eles metiam as botas na lama e erguiam ou baixavam os tais canos, para que a água vertesse entre os corredores de mudas. E as plantinhas agradeciam.

A entrevista foi longa, a sessão de fotos também. Mas a gentileza de Emílio superava todas as expectativas. Para que tivéssemos a dimensão do vale do Rio Fuerte, embarcamos novamente e subimos uma infinidade de tempo por uma estrada estreita, chão de pedra, até o ponto mais alto da serra que rodeia o vale. Que visão deslumbrante! Que paisagem! E mais: ali em cima havia muitos daqueles cactos que são típicos do México, e que eu queria porque queria que Luciana fotografasse – em primeiro plano, com o vale ao fundo... Tirana... Ela meteu-se no meio de espinhos, desceu morro, subiu morro, até fazer a foto que eu pedia... E que sequer foi publicada...

Bem, mas o dia chegava ao fim, precisávamos voltar e não tínhamos como. Na Casa do Agricultor não havia ninguém. Porta trancada. Então apareceu um rapaz conversador. Explicou que não precisávamos nos preocupar, as pessoas estariam de volta “ahorita, ahorita” (o que pode significar minutos ou dias...), e nos convidou para jantar.

Haha! Já tínhamos passado o susto com a polícia, andado por charcos, desertos e montanhas, íamos nos meter no carro de um fulano e sair para jantar? Sim. Estávamos mortas de fome. Bom, mas primeiro perguntamos quem era ele. Engenheiro Agrônomo. Trabalhava ali mesmo e nos tinha visto quando chegamos. Acreditamos. Melhor assim.

No carro ele explicou que iríamos ao restaurante de um tio, de um professor. Parecia brincadeira. Não era. Chegamos a uma casinha bonitinha, passamos por um corredor cheio de plantas, e desembocamos num pátio com poucas mesas, em que um senhor alto, magro, bem aprumado, veio nos cumprimentar. Fomos apresentadas como jornalistas brasileiras e nosso anfitrião encomendou “aquele prato”.

– Vocês não estão levando a sério, mas ele é mesmo meu tio, professor aposentado de Educação Física, e faz a melhor sopa de camarões de todo o México!

Ele não mentia. Nos esbaldamos. Depois tomamos carona com outro engenheiro para voltar ao hotel na Cidade do México. Um belíssimo chapéu que Luciana havia comprado no correr dessa aventura ficou esquecido no banco traseiro da caminhonete. Nunca mais soubemos dele. Ficou na conta do caldo de camarão... Que, tão exaustas e aparvalhadas estávamos, nem fotografamos...

A reportagem resultante dessa viagem foi publicada na Revista Odebrecht Informa e pode ser lida no link (http://www.odebrechtonline.com.br/materias/00801-00900/883/).

domingo, 29 de agosto de 2010

Chic, pero no sabroso






Tínhamos passado semanas perambulando por desertos, matas, vales, montanhas, vilas, cantos e recantos do interior mexicano.

Em nosso último dia na Cidade do México, mal desembarcamos no aeroporto local, resolvemos que merecíamos um jantar decente, em mesa com toalha, com garçom de roupa branca, sem violões aos berros em nossos ouvidos... Coisas assim... Confortos mínimos dos quais andávamos esquecidas.

Fomos ao que era conhecido como o melhor restaurante local, na avenida mais badalada da cidade. Quando o maître deu comigo e com Luciana à porta de entrada, não pode conter uma careta. Estávamos descabeladas, empoeiradas, horrorosas. Mas queríamos ser bem tratadas, nos disseram que aquele era o lugar, e ficaríamos a qualquer custo.

Explicamos que viajávamos há dias, que desejávamos comer muito bem, fomos ao banheiro dar um tapa na aparência, pedimos tequilas – as mais bem servidas entre as que tomamos no México, é preciso reconhecer – e, diante do cardápio variado, solicitamos uma sugestão ao garçom... Com um jeitinho brasileiro que estrangeiro jamais compreenderia:

– Queremos algo que nos faça felizes!

Erro fatal.

Bueno, o prato chegou depois de muuuitas doses de tequila. Mas ainda estávamos sóbrias o bastante para estranhar o que tínhamos diante de nós. Era uma obra de arte, certo. Algo feito com um molho branco, de uma planta nacional, enfeitado com sementes de romãs... E gelado!!!!!

Se o prato tivesse apenas sabor esquisito, até poderíamos ter aguentado. Mas precisávamos de algo quentinho, que afagasse nossas almas... À primeira garfada, não pudemos conter um argh em uníssono...

Luciana estava inconformada, brava mesmo. O restaurante revelara-se chique, mas era só aparência. O atendimento era ruim, o cardápio sofrível e o preço salgadérrimo.
Chamou o maître, deu-lhe um passa-moleque à moda das nossas avós, pagamos as tequilas e saímos.

Poucos metros adiante, havia uma cantina italiana. Resolvemos comer pasta. Sem riscos. Serviço impecável, ótimo vinho, mesas postas à varanda... Tudo isso na mesma badalada Avenida Presidente Masaryk. E baratinho, baratinho.

sábado, 28 de agosto de 2010

Os Rosa

Foi numa sala avarandada que Gustavo Rosa me recebeu. Lugar claro, aconchegante. Só lamentei que ficasse diante daquela melancia ultrajante que Ruy Ohtake projetou para um hotel na Avenida Brigadeiro Luiz Antonio...

Bom, tem gosto pra tudo. Não sei o que Tomie Ohtake sentiu ou pensou quando viu aquilo... Mas afinal os pais não são responsáveis pelas obras de seus filhos... E a casa de Gustavo Rosa tinha um muro beeeem alto.

A entrevista tinha sido prevista para durar uma hora. Acontece que a conversa era ótima, o chazinho perfumado e saboroso, e logo junto à varanda ficava a sala de trabalho do artista... Eu me deliciei. Falamos sobre as dificuldades da vida de artista, sobre escrever, se expressar... Conforme o tempo ia passando, uma senhorinha invisível absolutamente eficiente trazia suquinhos, biscoitinhos, quitutes diversos...

Alimentei corpo e alma. Cheguei pela manhã e saí ao entardecer. Ganhei uma gravura de Gustavo naquele dia. Uma gordotinha irresistível. Emoldurei, pendurei, guardei a lembrança do encontro, mas não voltei a fazer contato – e ele tampouco.

Anos se passaram. Um dia, fui escalada para ir a Macaé e escrever sobre petróleo. Viagem de madrugada. No Aeroporto Santos Dumont , uma van me aguardava. Dentro, um fotógrafo. Apresentação:

– Roberto Rosa.
– Eliana Simonetti.

Estávamos ambos exaustos e mal-humorados. Fomos secos, naquelas circunstâncias, sem dúvida. A viagem do Rio a Macaé era longa, em estrada ruim – e ainda teríamos de fazer falar as gentes da Petrobras, de conseguir autorização para fotografar instalações... Capítulos à parte, desafiadores, no trabalho.

Não sei bem como aconteceu de começarmos a conversar. Talvez os buracos da estrada tenham nos acordado, nos deixado mais agitados. O fato é que falamos. Soube que Bob é irmão de Gustavo. Que nascera em São Paulo, embora falasse com todos os esssesss e errressss a que um carioca tem direito. Foram mais ou menos duas horas de papo, às vezes mais tristinho, às vezes mais descontraído, em que nos conhecemos bastante.

Bob é o fotógrafo mais ansioso, mais perfeccionista, mais obstinado com quem já trabalhei. Gesticula, fala, sua por todos os poros – tem até toalhinhas da bolsa para secar o rosto, desembaçar a vista e conseguir olhar o cenário, acertar o foco na máquina fotográfica. E toca esperar. Ele só pára quando consegue exatamente o que quer. O sol batendo na florzinha da ponta do galho da árvore, o olhar que diz tudo de uma personagem... Daí então ele grita. Pronto! Vem ver, vem ver!

Não tem erro. Sempre concluo que a espera valeu. Bob é artista, como seu irmão Gustavo.

A reportagem foi feita. E depois houve outras, incontáveis, por toda parte do Brasil e do mundo. Ficamos amigos, meio irmãos. Sem nunca ter visto seus filhos, sei muito sobre eles. Assim como ele sabe dos meus. Quando encontrei sua mulher, nem precisávamos de apresentação: conversa fácil de quem convive há anos.

A história agora é do Rosa fotógrafo. Ocorreu no Peru.

A empreitada era complicada. Passaríamos 15 dias dentro de uma caminhonete, entre Cuzco e a Amazônia, por uma estrada que serpenteava estreita sobre os Andes. No carro ia o motorista, quechuahablante, que me serviu de tradutor e intérprete nas entrevistas com gente do interior. Ia também uma pessoa da Construtora Norberto Odebrecht, que fazia a reforma e a restauração da estrada, encarregada de cuidar para que tudo corresse sem maiores percalços – Samuel, um triatleta obsecado por saúde que, algumas vezes nessas duas semanas, teve de se conformar e comer pratos estranhíssimos, preparados por mãos encardidas. Sofreu, pobrezinho...

O que vimos foi indescritível. O Peru é terra belíssima. Os Andes têm paisagens de tirar o fôlego. Mas 15 dias é tempo demasiado para conviver intensamente. E ficávamos horas e horas confinados aos poucos metros quadrados da cabine da caminhonete...

A viagem chegava ao fim quando, um após outro, fomos nos descontrolando, reclamando, explodindo. Então, fez-se a luz. Afinal, aquilo não era um casamento! Não tínhamos de conviver para sempre, de entender, aceitar, nos adaptar às manias uns dos outros...

Rimos, fizemos as pazes e terminamos o serviço em ótimo astral.

Há várias boas histórias sobre esta viagem. Escrevo dia desses.

Bob é amigo para sempre. Soube que Gustavo, que nunca mais vi, mas é parte da família, não está bem de saúde. Sinto. Muito.

A foto de Roberto Rosa na labuta foi feita por mim - e como não sou fotógrafa, por favor, sejam condescendentes.
As outras imagens da
viagem pelos Andes peruanos, by Bob Rosa, são exemplos do resultado que ele obtém.
Crédito: Roberto Rosa

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Uma lição trabalhosa

No tacho armado sobre o fogo, no pátio atrás da casa, a abóbora borbulhava. Panela enorme mexida com colher de pau de cabo compridíssimo. Uma arte. Não se podia descuidar um momento ou o doce pegava no fundo, escurecia, perdia o brilho e o ponto.

A mãe mexia que mexia, os braços pesados pelo esforço. Filhos, sobrinhos, vizinhos, uma criançada vinda de todos os cantos ficava ali, espreitando, entre curiosa e gulosa, à espera que a delícia ficasse pronta e fosse oferecida a todos.

Então algo forçou a mestre-cuca a se afastar do tacho. Para não correr riscos, ela encarregou uma das garotas, não mais de dez anos de idade, de dar conta do recado: revolver o doce e aprontá-lo.

A incumbência era uma honra. Serviço de gente grande. E a garota, sem pestanejar, tomou o cabo da colher e resolveu olhar o resultado dos seus movimentos – a cabeça pertinho daquele vapor quentíssimo.

– Minha filha, doce a gente mexe com a cabeça, não com a mão!!

A mãe falou e saiu. A garota afastou o rosto do fogo. Mas a frase fazia sentido? Afinal, ela deveria usar a mão para movimentar a colher! E se deixasse a cabeça onde estava, acabaria se queimando! Que história era aquela de mexer o doce com a cabeça e não com a mão?

A audiência se meteu numa discussão danada. Cada um interpretava a lição a seu modo. Até que a nova dona do doce, a menina, explicou com o olhar mais inocente desse mundo:

– O que minha mãe disse é que eu preciso pensar antes de fazer as coisas. Que cabeça serve para pensar – e só depois que eu descobrir a melhor maneira de mexer o doce é que devo pegar a colher e começar a trabalhar...

Muitos dos que ouviam suas palavras, arregalados, eram bem mais velhos do que ela. Mas ou não usavam bem suas cabeças, ou não estavam acostumados à forma de ensinar daquela senhora – que, convenhamos, era incomum.

Houve quem, naquele momento, atinasse com o valor do raciocínio, da reflexão... Eu, que já devia ser sabida, do alto dos meus 15 anos, estava nessa turma. E de lambuja percebi como é fácil aprender com exemplo, com experimentação...

A mestra: minha tia Jael. A garota: minha prima Jussara.

Ah, e o doce ficou perfeito!

domingo, 22 de agosto de 2010

Dinheiro não é problema


O mote do professor de karatê Juichi Sagara, um dos primeiros vindos do Japão para o Brasil, não tinha lá muito sentido, mas nunca saiu da minha cabeça: “Dinheiro não é problema”, ele dizia – quer a situação tivesse ou não a ver com dinheiro, projetos, o que fosse.


Tinha uma academia no Ipiranga, na Avenida Dom Pedro, do lado oposto ao do Museu. Dava aulas no andar de baixo e morava com a mulher no andar de cima.


Aconteceu que um colega de escola, Jim Sato, começou a treinar karatê – e tanta propaganda fez, que eu e Adélia resolvemos entrar nessa. Mas havia um problema. Visitamos academias e academias, e nenhuma aceitava nossa matrícula: karatê era coisa de homem. Isso até que um baiano karateca, Denílson Caribé, recomendou Sagara. Não que ele fosse exatamente um liberal, mas naquele universo era o melhor que poderíamos almejar.


A conversa com Sagara foi longa, com muitas negociações. Nós éramos adolescentes. Precisamos levar autorização escrita de nossos pais para ingressar naquele mundo masculino. Mas no final as coisas se acertaram. Sagara tornou-se nosso sensei, nosso mestre. Aprendemos e treinamos com ele durante anos.


As aventuras foram tantas que, só elas, dariam um blog inteiro. Fiquemos no básico.
Treinávamos com um bando de marmanjos que tomavam o maior cuidado para não nos machucar – então, fizemos que fizemos, ficamos fortinhas, aprendemos técnicas e mais técnicas, e desafiamos os machões no seu território. Por vezes nos demos bem, em outras nos machucamos. Mas no final dos treinos, roxas, doloridas, encharcadas de suor, sempre estávamos bem felizinhas.


Na academia não havia vestiário feminino. Então usávamos a lavanderia da casa, no andar de cima, tirávamos o quimono ensopado, tomávamos um banho de gato na torneira do tanque, nos aprumávamos e saíamos para a avenida, já noite, para tomar o ônibus – o Fábrica, que dava uma volta e meia por São Paulo antes de nos deixar na Avenida dos Maracatins, no Ibirapuera. De lá, íamos a pé para casa – não sem antes comprar dois pacotes daqueles deliciosos e crocantes biscoitos sembei, tipo biju, que comíamos compulsivamente.


Uma tarde, a mulher de Sagara, que não era de muita conversa, como convém à esposa de um japonês, nos convidou para sentar à sala. Em torno de uma mesinha baixa estavam reunidos alguns dos alunos preferidos de Sensei. Conversavam, riam, contavam histórias. Chegou uma travessa. Filetes de cobra a marinara ou ao vinagrete... E também uma garrafa de pinga, com uma cobra meio desfeita enrolada dentro...


Argh!!


Comemos e bebemos, evidentemente. Não se pode fazer desfeita a um Sensei. Na verdade, o evento era uma honra. E acabamos concluindo que a pinga tinha gosto de cachaça como outra qualquer, e a carne de cobra era como isopor ao vinagrete. Nada demais.


Encontrei com Sensei uma vez, muitos anos depois, num avião, de volta de Brasília. Ele era irmão do lutador e senador Kanji Inoki, que fora convidado para a cerimônia de posse do ex-presidente Fernando Collor de Mello, em 1989 – e tomara uma carona no convite. Sequer conversamos. Hoje, pesquisando, descubro que Sensei Sagara morreu em 2001... Nove anos atrás!!

A foto mostra Sagara como conheci. Adorava um katá. Foi retirada do site ejmas.com.