quarta-feira, 18 de agosto de 2010
1001 texts on places and people: História do passado no presente
1001 texts on places and people: História do passado no presente: "Salvador, Bahia, 1975 ou 1976. Uma cidade ainda sem avenidas largas. Sem trânsito exagerado de carros e ônibus, sem buzinas. Sem hotéis com..."
Gente que late e morde
Moscou no final do período Ieltsin – ele doente, ausente; a Rússia meio que sem rumo na economia e na política; as pessoas com uma saudade indisfarçável do autoritarismo, do comunismo, da estabilidade confortável das filas para abastecer a casa; de não ter de mostrar competência para ganhar o pão de cada dia.
Na Rússia, naquele tempo, se percebia claramente o que é um povo com uma história milenar de repressão, de desliberdade, de falta de opção. Foi assim com os czares e depois, com raros intervalos, durante o comunismo.
Semáforo? Esqueça. Acelere e passe se tiver espaço e coragem. Se for pedestre, feche os olhos e siga em frente. Chegando ao outro lado da pista, à calçada, comemore.
Ficou com fome durante suas andanças? Sim, havia portas com placas de restaurante e padaria (em cirílico, porque o alfabeto arábico ainda não havia estreado por ali) – mas entre entrar e ser atendido passavam-se minutos, às vezes horas. Não que não houvesse atendentes. Eles existiam, e até olhavam para os intrusos, mas simplesmente não se moviam. Alternativa mais fácil para matar a fome era o MacDonalds, pertinho do Kremlin. Mas as filas... Ah, as filas davam voltas em quarteirões... E os atendentes nunca entendiam os pedidos – entregavam aos cliente o que estava à mão, gostassem eles ou não.
Museus, exposições de arte, espetáculos de teatro? Muitos. Era difícil escolher. Especialmente porque só se pode permanecer em Moscou por cinco dias – a população da cidade é controlada – e nesse espaço de tempo não dá mesmo pra ver muita coisa. Então, depois de escolher, era preciso chegar ao local – o que, afinal, não era assim tão complicado, porque os metrôs moscovitas são magníficos e funcionam às mil maravilhas. Daí restava enfrentar a fila. Invariavelmente imensa. Como se toda a população russa tivesse feito a mesma escolha que você.
A descoberta decorrente da experiência foi interessante. Fila, em Moscou, é pra brasileiro, ingles, portugues, estrangeiro ver. Se você ficasse no seu lugar, esperando andar passo a passo até o guichê dos ingressos, não sairia da portaria. Volta e meia alguém metia um cotovelo na sua costela e passava à sua frente. Ou falava grosso e te deixava pra trás.
Isso valia para várias situações. Os russos adoram um corpo a corpo. E latem. Quem late mais grosso ganha a parada. Resultado: aquela turista educadinha, dócil, de repente se torna brutal. Late, grita, pisa no pé de qualquer senhorinha mais safada.
Foi assim que consegui que meus filhos comessem boas refeições em restaurantes, que víssemos as peças expostas na galeria estatal Tetyakov, que comprássemos bugigangas na legendária Rua Arbat, e até que assistíssemos ao desfile de limusines diante do restaurante que costumava ser frequentado por Stalin, de preços proibitivos.
Foi assim também que me livrei de um sujeito asqueroso quando estávamos de partida, numa escala entre Praga, Moscou e São Paulo, e tivemos de passar uma noite num hotel infecto ao qual fomos forçados a chegar, de malas em punho, no meio da noite.
Estávamos na calçada de uma avenida larga. Éramos cinco: eu e quatro filhos, as mais novas, gêmeas, com cerca de nove anos de idade. Caminhávamos em fila. De repente, longe do meio fio, mas bem perto do nosso grupo, estaciona um Lada caindo aos pedaços. Dele desce um homem trôpego, com a boca cheia de dentes de ouro. Anda em direção a uma das meninas e fala sem parar, apontando para o carro.
Sem pensar duas vezes, corri e lati, dentes à mostra como um vampiro de filme de terror.
– NIET! NIET!
Os olhos do homem mostraram espanto e medo. Ele baixou a cabeça e partiu.
No dia seguinte chegamos cedo ao aeroporto e nos plantamos diante da porta de embarque. Quem quis passar à frente foi sutilmente desestimulado. O truque de lidar com aquela gente tinha sido aprendido, definitivamente. Sorte. Houve overbooking e 14 passageiros ficaram – não na cidade de Moscou, mas retidos no aeroporto, até que outro avião com destino à América Latina os resgatasse.
Na Rússia, naquele tempo, se percebia claramente o que é um povo com uma história milenar de repressão, de desliberdade, de falta de opção. Foi assim com os czares e depois, com raros intervalos, durante o comunismo.
Semáforo? Esqueça. Acelere e passe se tiver espaço e coragem. Se for pedestre, feche os olhos e siga em frente. Chegando ao outro lado da pista, à calçada, comemore.
Ficou com fome durante suas andanças? Sim, havia portas com placas de restaurante e padaria (em cirílico, porque o alfabeto arábico ainda não havia estreado por ali) – mas entre entrar e ser atendido passavam-se minutos, às vezes horas. Não que não houvesse atendentes. Eles existiam, e até olhavam para os intrusos, mas simplesmente não se moviam. Alternativa mais fácil para matar a fome era o MacDonalds, pertinho do Kremlin. Mas as filas... Ah, as filas davam voltas em quarteirões... E os atendentes nunca entendiam os pedidos – entregavam aos cliente o que estava à mão, gostassem eles ou não.
Museus, exposições de arte, espetáculos de teatro? Muitos. Era difícil escolher. Especialmente porque só se pode permanecer em Moscou por cinco dias – a população da cidade é controlada – e nesse espaço de tempo não dá mesmo pra ver muita coisa. Então, depois de escolher, era preciso chegar ao local – o que, afinal, não era assim tão complicado, porque os metrôs moscovitas são magníficos e funcionam às mil maravilhas. Daí restava enfrentar a fila. Invariavelmente imensa. Como se toda a população russa tivesse feito a mesma escolha que você.
A descoberta decorrente da experiência foi interessante. Fila, em Moscou, é pra brasileiro, ingles, portugues, estrangeiro ver. Se você ficasse no seu lugar, esperando andar passo a passo até o guichê dos ingressos, não sairia da portaria. Volta e meia alguém metia um cotovelo na sua costela e passava à sua frente. Ou falava grosso e te deixava pra trás.
Isso valia para várias situações. Os russos adoram um corpo a corpo. E latem. Quem late mais grosso ganha a parada. Resultado: aquela turista educadinha, dócil, de repente se torna brutal. Late, grita, pisa no pé de qualquer senhorinha mais safada.
Foi assim que consegui que meus filhos comessem boas refeições em restaurantes, que víssemos as peças expostas na galeria estatal Tetyakov, que comprássemos bugigangas na legendária Rua Arbat, e até que assistíssemos ao desfile de limusines diante do restaurante que costumava ser frequentado por Stalin, de preços proibitivos.
Foi assim também que me livrei de um sujeito asqueroso quando estávamos de partida, numa escala entre Praga, Moscou e São Paulo, e tivemos de passar uma noite num hotel infecto ao qual fomos forçados a chegar, de malas em punho, no meio da noite.
Estávamos na calçada de uma avenida larga. Éramos cinco: eu e quatro filhos, as mais novas, gêmeas, com cerca de nove anos de idade. Caminhávamos em fila. De repente, longe do meio fio, mas bem perto do nosso grupo, estaciona um Lada caindo aos pedaços. Dele desce um homem trôpego, com a boca cheia de dentes de ouro. Anda em direção a uma das meninas e fala sem parar, apontando para o carro.
Sem pensar duas vezes, corri e lati, dentes à mostra como um vampiro de filme de terror.
– NIET! NIET!
Os olhos do homem mostraram espanto e medo. Ele baixou a cabeça e partiu.
No dia seguinte chegamos cedo ao aeroporto e nos plantamos diante da porta de embarque. Quem quis passar à frente foi sutilmente desestimulado. O truque de lidar com aquela gente tinha sido aprendido, definitivamente. Sorte. Houve overbooking e 14 passageiros ficaram – não na cidade de Moscou, mas retidos no aeroporto, até que outro avião com destino à América Latina os resgatasse.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Um mestre das aguas

Saí de Mapurilândia, no Amazonas, para navegar num barco improvável, uma rabetinha, com um piloto que poderia ser meu neto. Eu, recém-chegada da cidade grande, armada de gravador, máquina fotográfica, e com a pretensão de escrever uma cartilha sobre pesca de pirarucu para os próprios pescadores de pirarucu. Aldemiro, garoto do mato e do rio, com os pés descalços, armado de faca e arpão.
Eu perguntava e ele respondia. Depois, tinha de traduzir, porque alguma coisa nas palavras, na construção das frases, não fazia sentido pra mim.
Uma hora após o embarque seguíamos por um cano d`água cheio de tocos que levava ao lago. Foi aí que Aldemiro me saiu com esta lição inesquecível:
“A senhora é sabida nas letras que não têm utilidade, mas não entende do que tem serventia. Aqui eu sou o professor”.
E era mesmo! Dos bons!
A ilha da casa do tatu


Pesquisadores da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) descobriram recentemente pontas de lança e cerâmicas usadas por populações pré-históricas na Ilha de Tatuoca, no litoral de Ipojuca, cerca de 50 quilômetros distante de Recife. Achados arqueológicos como lanças e raspadores provavelmente pertenceram a índios tupis que ocuparam o local até a chegada dos colonizadores portugueses e holandeses.
Visitei Tatuoca em 2003, logo depois de desembarcar de minha primeira viagem a Angola. Em choque com a miséria que vi naquele país destruído por mais de 70 anos de guerra, e pensando que afinal Caetano tinha razão ao cantar que o Haiti (ou Luanda) é aqui, escrevi algo mais ou menos assim.
Quanta gente vive em Tatuoca? Exatamente 164 pessoas – 70 crianças. Apenas 36 com carteira de identidade. Quarenta com certidão de nascimento. Uma população completamente isolada, sem energia elétrica, água potável e assistência do Estado. De uma cacimba rústica, uma poça de depósito de água da chuva, sai o líquido de beber, de banhar-se e de lavar. Na escola não há cadeiras, mesas, professor, merenda, livros ou cadernos.
Pois bem. Sete anos depois, leio no portal oficial da Prefeitura de Ipojuca (http://gwmroot.gt.com.br/ipojuca) que Tatuoca, suas praias e os estuários de seus rios, são pontos turísticos badalados. E mais. Que ali será implantada a sede de um cluster naval – inclusive com acesso rodoferroviário ao Estaleiro Atlântico Sul – parte do Complexo Industrial Portuário de Suape.
Para a execução do projeto, a comunidade de história secular está aos poucos sendo transferida dos 7.300 metros quadrados que compõem a ilha, com seus rios, manguezais e matas, para 51 casas de gesso com dois quartos e quintais de 25m². A chamada Zona Residencial Nova Tatuoca. Sua cultura tradicional, extrativista e de agricultura de subsistência, terá de ser alterada. Como tudo mais em sua vida. É o que se chama progresso: a incorporação, no dia-a-dia das pessoas, de novas conquistas no campo tecnológico, da saúde, da construção, dos transportes... Pode até ser bom. Mas o tatu, pobrezinho, perdeu a toca.
Solidao e magoa ceifeiras
Foi numa ronda, numa noite escura, que os policiais tropeçaram num embrulho encostado na parede de uma casa em ruínas na periferia de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Um bebê imóvel, calado, minúsculo.
Dali ele foi levado a uma casa da Febem – instalação pequena, com boa estrutura, cozinheira, faxineira, enfermeiras, cuidadoras... E seis bercinhos ocupados por bebês sorridentes e agitadíssimos.
Já no dia seguinte o garoto foi ao pediatra. Ao neurologista. Ao oftalmo. A uma maratona de exames. Estava desidratado, sim, mas a saúde física era boa – exceto pelo fato de que ele tinha idade estimada de seis meses e tamanho de recém-nascido. Não chorava, não mamava, não sorria – e não crescia. O diagnóstico: faltavam a ele carinho e amor, vontade de viver.
Bem, a mulherada se digladiou e acabou montando uma grade de horários para que cada uma pudesse segurar o menino no colo, brincar com ele, acariciá-lo e alimentá-lo por um tempinho. Quando estive ali, isso acontecia havia dois meses. Sem progressos. Pior. O garoto não podia ser oferecido à adoção, porque a polícia não localizara sua mãe, que oficialmente tinha poder sobre ele.
Nesta mesma casa da Febem fiquei sabendo de outra história. De uma menininha deixada para adoção por uma moça que, logo em seguida, morreu vítima de Aids. A menina também era portadora do vírus HIV. Tinha dois anos de idade. Uma enfermeira encantou-se com ela. Por um ano lutou nos tribunais, até conseguir adotá-la. Mais um ano se passou. A garota foi submetida a exames e... Estava negativada, com a doença sob controle!
A enfermeira era uma das tantas que lutava para ficar com a guarda do menininho triste, que não crescia. E que veio a falecer antes de completar um aninho. Velho e cansado da vida.
Dali ele foi levado a uma casa da Febem – instalação pequena, com boa estrutura, cozinheira, faxineira, enfermeiras, cuidadoras... E seis bercinhos ocupados por bebês sorridentes e agitadíssimos.
Já no dia seguinte o garoto foi ao pediatra. Ao neurologista. Ao oftalmo. A uma maratona de exames. Estava desidratado, sim, mas a saúde física era boa – exceto pelo fato de que ele tinha idade estimada de seis meses e tamanho de recém-nascido. Não chorava, não mamava, não sorria – e não crescia. O diagnóstico: faltavam a ele carinho e amor, vontade de viver.
Bem, a mulherada se digladiou e acabou montando uma grade de horários para que cada uma pudesse segurar o menino no colo, brincar com ele, acariciá-lo e alimentá-lo por um tempinho. Quando estive ali, isso acontecia havia dois meses. Sem progressos. Pior. O garoto não podia ser oferecido à adoção, porque a polícia não localizara sua mãe, que oficialmente tinha poder sobre ele.
Nesta mesma casa da Febem fiquei sabendo de outra história. De uma menininha deixada para adoção por uma moça que, logo em seguida, morreu vítima de Aids. A menina também era portadora do vírus HIV. Tinha dois anos de idade. Uma enfermeira encantou-se com ela. Por um ano lutou nos tribunais, até conseguir adotá-la. Mais um ano se passou. A garota foi submetida a exames e... Estava negativada, com a doença sob controle!
A enfermeira era uma das tantas que lutava para ficar com a guarda do menininho triste, que não crescia. E que veio a falecer antes de completar um aninho. Velho e cansado da vida.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Flash num café em Champs-Élysées
Esta passagem me foi enviada por uma amiga, Adélia Manus, dona de um mar de histórias e ideias que correm mais rápido do que a caneta ou os dedos no teclado.
Paris.
Três amigos na casa dos 20 anos, filhinhos de papai, jogando conversa fora à mesa de um café...
Cariocas típicos em férias parisienses...
Eu lia meu jornal e não podia evitar ouvir o português de acento cariocado da conversa em tom pouco discreto – sim, porque os três deviam estar absolutamente certos de que, ali, seu idioma era incompreensível.
Eles apostavam quem tomaria a iniciativa de tirar o véu de uma garota que, na companhia de dois homens, ocupava uma mesa próxima.
Tudo aconteceu em segundos. Um puxou o véu da moça, outro virou a cadeira e derrubou o homem mais velho, a garota com o olhar abestalhado cobriu o rosto, e seu outro acompanhante disparou atrás dos três garotões que já iam longe, desembestados pela avenida dos Champs-Élysées...
Como ficou a moça? O homem que foi ao chão se machucou? Outras pessoas que estavam no café se abalaram com o acontecido? Adélia largou o jornal e saiu à calçada para assistir a perseguição? E os três brasileiros? O que mais aprontaram nessas férias? Bem, a imaginação de cada um que dê conta de completar esse causo...
Paris.
Três amigos na casa dos 20 anos, filhinhos de papai, jogando conversa fora à mesa de um café...
Cariocas típicos em férias parisienses...
Eu lia meu jornal e não podia evitar ouvir o português de acento cariocado da conversa em tom pouco discreto – sim, porque os três deviam estar absolutamente certos de que, ali, seu idioma era incompreensível.
Eles apostavam quem tomaria a iniciativa de tirar o véu de uma garota que, na companhia de dois homens, ocupava uma mesa próxima.
Tudo aconteceu em segundos. Um puxou o véu da moça, outro virou a cadeira e derrubou o homem mais velho, a garota com o olhar abestalhado cobriu o rosto, e seu outro acompanhante disparou atrás dos três garotões que já iam longe, desembestados pela avenida dos Champs-Élysées...
Como ficou a moça? O homem que foi ao chão se machucou? Outras pessoas que estavam no café se abalaram com o acontecido? Adélia largou o jornal e saiu à calçada para assistir a perseguição? E os três brasileiros? O que mais aprontaram nessas férias? Bem, a imaginação de cada um que dê conta de completar esse causo...
domingo, 15 de agosto de 2010
Rico por natureza

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Antonio tem 48 anos, uma filha, três netos. Vive com a família entre igarapés do alto Solimões, no Amazonas, numa das comunidades de Mapurilândia – uma reserva de desenvolvimento sustentável.
Quando é temporada de pesca, ou quando há combustível para o motor do barco que alcança os lagos, toda a comunidade se farta: recolhe tambaqui, curimatã, aruanã, mapará, pacu, e um manjar que só quem nasceu na Amazônia é capaz de apreciar – o bodó, um bicho achatado, preto e liso, com mais de um palmo de comprimento, que recolhido de buracos às margens dos rios é cozido e comido inteirinho.
Antonio trabalha bastante no tempo de despesca do pirarucu. Sabe direitinho onde os peixes vivem, conhece seu tamanho pelo tempo que levam entre uma e outra subida para respirar, e lida com destreza com seu arpão. Fora dessa temporada, desfruta a vida com prazer. Está em seu paraíso e não há o que lhe tire de lá.
O peixe de cada dia é sacado da água pelos netos, com linha de pesca, num fiozinho de água que corre ao lado de casa. No terreno há banana, coco, mandioca e urucum – além de porcos e galinhas.
Como é a casa desse chefe de família? Bem, tem pilastras sob o piso, para evitar a invasão das águas nos tempos de chuva. Tem telhado. Tem redes. Mas não tem paredes. Nem cadeiras ou outros móveis.
– Aqui não tem perigo, não faz frio, e os carapanãs estão acostumados com nosso sangue... Não acham graça nem na mordida... Então para que paredes? Assim como estamos podemos ver tudo o que se passa a nossa volta!
Mais. Não há escada para subir à casa da família de Antonio: quem quer entrar precisa escalar um tronco de madeira. O piso fica livre para as crianças brincarem e para que as pessoas sentem em roda, para uma conversa mansa ou para fazer uma refeição em torno da panela.
Numa espécie de trapiche, atrás da casa, fica o fogão – uma armação de tijolos com fogo a lenha em que, num caldeirão com tempero colhido no quintal, são cozidos todos os peixes despescados no dia, seja lá de que espécie forem. A refeição de rotina: cozido de peixe com farinha de mandioca. Delícia.
Nessa vida simples, feliz, sem ambições, Antonio se orgulha de um feito, de uma riqueza. Comprou para o neto, de 8 anos de idade, um motor de motocicleta, desses que podem ser adaptados a canoas, veículos fundamentais para a sobrevivência na Amazônia. O tal motor, vermelho reluzente, fica guardadinho num canto da casa, esperando que o garoto cresça e possa se aventurar pelas águas amazônicas. Se pode estragar por falta de uso, enferrujar, ficar ultrapassado? Ah, isso nem passa pela cabeça de seu Antonio!
História do passado no presente
Salvador, Bahia, 1975 ou 1976.
Uma cidade ainda sem avenidas largas. Sem trânsito exagerado de carros e ônibus, sem buzinas. Sem hotéis com campos de golfe. Sem shopping centers. Praias de areia branca. Barracas e cabeludos falando de amor sob os coqueiros de Itapoã.
Uma gente com tempo pra trabalhar, passear, apreciar paisagens, bebemorar, curtir amigos antigos e de passagem.
Num apartamento amplo, arejado, claro, num bairro bacana, morava um advogado escritor e atleta. Negão daqueles que povoam os sonhos de adolescentes branquinhas de classe média. Grande, forte, bem humorado, inteligente. Com protetor solar e chapéu, ele ia à praia todos os dias. Tinha uma academia e, às noites, dava aulas de ginástica e esportes. No intervalo, de terno e gravata, ia ao fórum, recebia clientes em seu escritório, estudava processos. Em algum momento, escrevia artigos publicados num jornal soteropolitano de grande circulação. E, para completar, ainda liderava um bloco carnavalesco.
Esse sujeito plural dividia o tal apartamento envidraçado com sua mãe, uma senhorinha gentil que vivia de olhos baixos, andava arrastando os pés e... maravilha das maravilhas, era cozinheira de mancheia.
Três vezes ao dia Dona Zefinha servia mesa farta e retirava-se para a cozinha. Num canto, sozinha, comia à moda antiga, jogando a comida à boca com as mãos.
Seu filho doutor chegava sem dizer palavra. Acomodava-se à mesa e, se sentia falta de algo, erguia os braços e batia palmas – duas vezes, não mais.
Dona Zefinha largava tudo. Corria para a sala, olhos postos no chão, e ouvia.
– Água de coco!
Sem por favor, nem obrigado.
A jarra com água de coco geladinha surgia à mesa como num passe de mágica.
O terno, a gravata, a camisa, impecavelmente limpos e passados, já esperavam sobre a cama. Para isso as palmas eram desnecessárias. Ele tomava seu banho, se aprumava, e saía. Quando a porta batia, quem estivesse a observar aquele ritual até assustava ao escutar:
– Bença, mãe!
Ela analfabeta, ele doutor. Ela humilde, ele bem sucedido. Ela mulata, ele negro. Ela servil, ele senhor. Entendimento sem par. Viviam, em plenos anos de revolução cultural e de costumes, como se estivessem no século XVIII.
Uma cidade ainda sem avenidas largas. Sem trânsito exagerado de carros e ônibus, sem buzinas. Sem hotéis com campos de golfe. Sem shopping centers. Praias de areia branca. Barracas e cabeludos falando de amor sob os coqueiros de Itapoã.
Uma gente com tempo pra trabalhar, passear, apreciar paisagens, bebemorar, curtir amigos antigos e de passagem.
Num apartamento amplo, arejado, claro, num bairro bacana, morava um advogado escritor e atleta. Negão daqueles que povoam os sonhos de adolescentes branquinhas de classe média. Grande, forte, bem humorado, inteligente. Com protetor solar e chapéu, ele ia à praia todos os dias. Tinha uma academia e, às noites, dava aulas de ginástica e esportes. No intervalo, de terno e gravata, ia ao fórum, recebia clientes em seu escritório, estudava processos. Em algum momento, escrevia artigos publicados num jornal soteropolitano de grande circulação. E, para completar, ainda liderava um bloco carnavalesco.
Esse sujeito plural dividia o tal apartamento envidraçado com sua mãe, uma senhorinha gentil que vivia de olhos baixos, andava arrastando os pés e... maravilha das maravilhas, era cozinheira de mancheia.
Três vezes ao dia Dona Zefinha servia mesa farta e retirava-se para a cozinha. Num canto, sozinha, comia à moda antiga, jogando a comida à boca com as mãos.
Seu filho doutor chegava sem dizer palavra. Acomodava-se à mesa e, se sentia falta de algo, erguia os braços e batia palmas – duas vezes, não mais.
Dona Zefinha largava tudo. Corria para a sala, olhos postos no chão, e ouvia.
– Água de coco!
Sem por favor, nem obrigado.
A jarra com água de coco geladinha surgia à mesa como num passe de mágica.
O terno, a gravata, a camisa, impecavelmente limpos e passados, já esperavam sobre a cama. Para isso as palmas eram desnecessárias. Ele tomava seu banho, se aprumava, e saía. Quando a porta batia, quem estivesse a observar aquele ritual até assustava ao escutar:
– Bença, mãe!
Ela analfabeta, ele doutor. Ela humilde, ele bem sucedido. Ela mulata, ele negro. Ela servil, ele senhor. Entendimento sem par. Viviam, em plenos anos de revolução cultural e de costumes, como se estivessem no século XVIII.
sábado, 14 de agosto de 2010
A velha e boa esperança da paixao
Ela com mais de 70 anos, bonita, bem vestida, cabelos cuidadosamente pintados de grisalho. Ele mais velho, desleixado com o vestir, cabelos brancos, andar um tanto trôpego. Viúvos, os dois encontraram-se por um desses acasos da vida. Viviam de mãos dadas – ele sempre à frente, ela atrás, com o braço esticadinho. Caminhavam muitíssimo. Na academia ou na quadra de esportes, faziam exercícios de ginástica como se fossem adolescentes. Viajavam e passeavam por cidades perdidas no mapa, iam a restaurantes, jogavam cartas. “Estamos namorando”, explicavam, como se houvesse alguma necessidade de esclarecimento. A paixão, a alegria, a esperança – tudo era absolutamente evidente naquela dupla...
Amigos intimos
Pizzaria numa pequena cidade do sul da Itália. Forno a lenha, um enorme aquário ao centro, com um único peixe a nadar preguiçosamente. Cinco televisores enormes – tela plana, imagem impecável, todos ligados, cada qual num canal. O som é ensurdecedor, mas as garçonetes não parecem perceber. Têm os olhos vidrados em um filme de ação – algum dos muitos em que Rambo sangra, bate, apanha e acaba vencendo, mas com uma peculiaridade: Sylvester Stallone fala perfeitamente o italiano.
Numa mesa de canto, bem debaixo de um dos tais televisores, quatro senhores de cabelos grisalhos bebem cerveja e assistem a uma partida de futebol.
Durante mais de uma hora eles viram seus copos, comem petiscos e conversam. Falam, gesticulam, falam mais, gesticulam mais ainda. Tudo sem trocarem olhares.
Como se formassem um jogral muito bem ensaiado, em nenhum momento um interrompe ou atropela a fala do outro. Ninguém observa as mãos agitadas e expressivas de um companheiro.
Depois de uma hora e tanto, os quatro, aparentemente satisfeitíssimos, pagam a conta, despedem-se efusivamente como se tivessem experimentado um encontro íntimo, e partem. Cada qual liga seu automóvel e sai numa direção. Fim de festa.
Numa mesa de canto, bem debaixo de um dos tais televisores, quatro senhores de cabelos grisalhos bebem cerveja e assistem a uma partida de futebol.
Durante mais de uma hora eles viram seus copos, comem petiscos e conversam. Falam, gesticulam, falam mais, gesticulam mais ainda. Tudo sem trocarem olhares.
Como se formassem um jogral muito bem ensaiado, em nenhum momento um interrompe ou atropela a fala do outro. Ninguém observa as mãos agitadas e expressivas de um companheiro.
Depois de uma hora e tanto, os quatro, aparentemente satisfeitíssimos, pagam a conta, despedem-se efusivamente como se tivessem experimentado um encontro íntimo, e partem. Cada qual liga seu automóvel e sai numa direção. Fim de festa.
Tortura em férias
A viagem começava com 20 dias em um navio – um cruzeiro de travessia do Atlântico, entre o Brasil e a Europa. Desembarcando na Itália, o médico; sua mulher, uma enfermeira grávida de três meses; e o filho de três anos; iriam a Paris antes de tomar um voo de volta para São Paulo. Eram as primeiras férias da família, planejadas com um ano de antecedência. Mas a jornada estava fora de tempo. Já seria uma empreitada de porte para mulheres não grávidas, para casais sem filhos, para duplas que se entendessem bem. Naquele caso, era um desatino. Ela enjoava todos os dias. Os dois brigavam por causa da cor da roupa que vestiam, do prato que pediam no restaurante, do que iriam ver nos pontos de parada do navio.
A personagem central desse drama, entretanto, é o garoto. Esperto, inteligente, brincalhão, ele foi o alvo do desequilíbrio dos pais. O espetáculo tinha como cenário preferencial o restaurante. Ali, no final da tarde, centenas de passageiros se reuniam para jantar vestidos de gala, como se estivessem em um navio dos anos 1950, um Titanic, digamos. Música ao vivo, conversas sussurradas nos mais variados idiomas, cardápios com primeiro, segundo, terceiro pratos e sobremesa... Além de visitas eventuais do capitão da nau, em seu uniforme impecável.
As mesas não ficavam muito distantes umas das outras. Nos primeiros dias, a família em questão esteve isolada, numa mesinha posta atrás de uma pilastra. Mas como a ansiedade da mulher por conversar fosse indisfarçável, a criança não conseguisse estar sentada por muito tempo, e o marido mostrasse uma timidez e um constrangimento perturbadores, logo os três foram convidados a se juntarem a outros brasileiros – estes em ritmo de festa, comemorando casamento, aniversário, novos rumos na vida.
Então as cortinas se abriram. Na mesa maior, a alegria foi substituída por um estado de tensão permanente. Em silêncio, todos se concentravam em observar os recém-chegados. Houvesse ali um quadrinista, certamente comporia uma história com argumento e figuras de terror. Da boca da mulher, com os lábios inchados, jorravam reclamações torrenciais – e ai de quem ousasse interrompê-la! O marido, obeso, com a camisa sempre empapada de suor, comia sem parar, sem mastigar, e empurrava tudo para dentro com latas e mais latas de refrigerante. E o garoto...
Comia bem? Tomava tapas na cara.
– Você não tem educação? Parece um morto de fome!
Não queria comer? Lá vinha uma saraivada de cotoveladas mal disfarçadas na barriga, nas costelas, onde o cotovelo da mãe alcançasse.
– Você vai morrer! Vai ficar fraco e morrer roxo! Come ou eu te jogo no mar pros tubarões moerem seus ossos!
Brincava na mesa do jantar? Na noite seguinte era trazido no colo, sedado, apagado.
Ficava parado e mudo como uma estátua? Ah, imediatamente os pais mexiam com ele, cutucavam, apertavam sua cabeça, até que ele reagisse, corresse, e então apanhasse por estar aprontando.
Não havia comportamento do filho que agradasse a dupla. Inclusive no camarote particular da família. A qualquer hora do dia ou da noite, quem passasse pelo corredor ouvia som de gritos e choro.
Italianos, alemães, suíços, belgas e principalmente brasileiros, presenciaram a criança ser torturada – e não disseram palavra. Alguém poderá argumentar que, afinal, ninguém tinha nada a ver com o assunto, que todos têm problemas, ou algo do gênero. Que privacidade deve ser respeitada.
O fato é que um dia, já no final do cruzeiro, alguém se indignou e a água entornou. Uma mãe sensível resolveu intervir. Conversou com a enfermeira, dizendo que como pessoa bem informada, ela deveria saber que não se pode agir com crianças como ela vinha fazendo com seu filho. Que o passeio deveria ser divertido para todos. Que o menino não podia arcar com o peso dos problemas que seus pais, adultos, não eram capazes de resolver... Ofereceu ajuda, enfim.
Resultado: o casal desapareceu. Pai, mãe e filho não jantaram mais no restaurante. Não foram vistos no desembarque ou nas ruas de Veneza. Chegaram a Paris? O menino subiu ao topo da Torre Eiffel, como sonhava? Retornaram sãos e salvos? Sabe-se lá. De todo modo, para este garotinho, como para tantos outros, a lei que proíbe castigos físicos em crianças já vem tarde.
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
A intrigante saga de Lily
Os holofotes iluminaram Lily Safra, a biliardária brasileira que, segundo a revista Forbes, é dona de 1,3 bilhão de dólares, com a publicação do livro `Gilded Lily` (Lily Dourada), uma biografia escrita pela premiada jornalista americana Isabel Vincent, do New York Post. Em 2010 ela ocupou o noticiário por doações que fez a hospitais e instituições de pesquisa, por aquisições e vendas de obras de arte, e também por sua amizade crescente com a nobreza da Inglaterra, em especial com o príncipe Charles e sua esposa Camila. Seu nome figura em jornais e revistas internacionais há décadas. Entretanto, pouca gente conhece Lily. Especialmente no Brasil, onde ela só ganhou algum destaque quando assumiu o sobrenome Safra, de uma das mais bem sucedidas famílias de banqueiros do país. Edmond Safra foi seu quarto marido e teve morte trágica.quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Antonio Ermirio e suas muitas paixões
Ícone entre o empresariado nacional, Antônio Ermírio de Moraes, um dos homens mais ricos do planeta, está no rol das personalidades brasileiras cuja biografia merece ser conhecida. Completou 82 anos em 2010. E como nos tempos de juventude, continua batendo ponto nos escritórios do Grupo Votorantim e do Hospital Beneficência Portuguesa. É turrão, exigente, perfeccionista, minucioso. Também tem uma inteligência prática e uma generosidade ímpares.
Antônio Nasceu em São Paulo, em 1928, com um único rim, mas só descobriu o defeito aos 20 anos, quando se formava engenheiro metalúrgico pela Universidade de Colúmbia, nos Estados Unidos. Antes estudou no Liceu Rio Branco, um dos colégios mais tradicionais de São Paulo, aonde chegava a bordo do Oldsmobile de seu pai, José Ermírio, que então já era um empreendedor bem sucedido.
A Votorantim foi fundada em 1918 pelo avô de Antônio Ermírio. Antônio Pereira Ignácio era um sapateiro português que guardou um dinheirinho, comprou uma tecelagem falida, trabalhou nela por cinco anos e resolveu mudar de ramo. O que fez, naqueles idos, foi uma aventura e tanto. Embarcou para os Estados Unidos e empregou-se como operário em uma fábrica de óleo comestível para aprender os mistérios do negócio. Durante o dia pegava no batente como operário e ao cair da noite assumia sua personalidade menos humilde, por assim dizer: frequentava bons restaurantes e se hospedava em hotéis confortáveis. Quando achou que já sabia o suficiente, convidou os diretores da empresa para um jantar de despedida em seu hotel e, para surpresa de todos, além de se apresentar sem o macacão do dia-a-dia, ainda devolveu, fechadinhos, os envelopes que continham os salários pagos durante sua permanência na companhia.
Se esta face da história da família de Antônio Ermírio de Moraes já lhe pareceu interessante, saiba que há muito mais. Ao deixar os Estados Unidos, Antônio Pereira Ignácio foi passear em Portugal, onde conheceu José Ermírio de Moraes. Este vinha de uma família de usineiros pernambucanos. Sua mãe, viúva prematura, desdobrara-se para que José não crescesse enraizado nos canaviais. De fato, ele formou-se engenheiro de minas nos Estados Unidos, em 1916. E mais tarde veio a casar-se com Helena, filha do sapateiro que se tornou milionário. José assumiu as empresas do sogro e deu a elas um novo viço. A Votorantim ingressou pelos caminhos do cimento, da cerâmica, da metalurgia.
Assim, Antônio Ermírio nasceu em berço de ouro, mas trabalhou ao lado do pai desde garoto, e logo que terminou o curso de engenharia assumiu, na prática, a administração dos negócios da família. Sempre foi austero no trabalho como na vida pessoal. Casou-se com a primeira namorada. Reúne filhos e netos ao menos uma vez por semana. Chegou a se aventurar na política, mas descobriu que lhe faltava talento para a coisa. Também enveredou por outros caminhos inusitados – o das letras e o dos espetáculos. Escreveu peças teatrais, administrou diretores e atores, foi aplaudido e paparicado.
Um empresário prático e objetivo? Isso é pouco. Antônio Ermírio é emotivo. E quem quiser comprovar, faça uma experiência: pedir que ele fale sobre seu trabalho voluntário como administrador do Hospital Beneficência Portuguesa. Melhor, não sobre seu trabalho, mas sobre o hospital em si. É uma paixão. Entre tantas.
As informações que compõem esse texto resultam de uma série de entrevistas. Ele falou de ética e eficiência na gestão pública em reportagem de capa da revista Forum & Negocios em 2005. Há uma reportagem especial disponível em http://veja.abril.com.br/030698/p_136.html
Antônio Nasceu em São Paulo, em 1928, com um único rim, mas só descobriu o defeito aos 20 anos, quando se formava engenheiro metalúrgico pela Universidade de Colúmbia, nos Estados Unidos. Antes estudou no Liceu Rio Branco, um dos colégios mais tradicionais de São Paulo, aonde chegava a bordo do Oldsmobile de seu pai, José Ermírio, que então já era um empreendedor bem sucedido.
A Votorantim foi fundada em 1918 pelo avô de Antônio Ermírio. Antônio Pereira Ignácio era um sapateiro português que guardou um dinheirinho, comprou uma tecelagem falida, trabalhou nela por cinco anos e resolveu mudar de ramo. O que fez, naqueles idos, foi uma aventura e tanto. Embarcou para os Estados Unidos e empregou-se como operário em uma fábrica de óleo comestível para aprender os mistérios do negócio. Durante o dia pegava no batente como operário e ao cair da noite assumia sua personalidade menos humilde, por assim dizer: frequentava bons restaurantes e se hospedava em hotéis confortáveis. Quando achou que já sabia o suficiente, convidou os diretores da empresa para um jantar de despedida em seu hotel e, para surpresa de todos, além de se apresentar sem o macacão do dia-a-dia, ainda devolveu, fechadinhos, os envelopes que continham os salários pagos durante sua permanência na companhia.
Se esta face da história da família de Antônio Ermírio de Moraes já lhe pareceu interessante, saiba que há muito mais. Ao deixar os Estados Unidos, Antônio Pereira Ignácio foi passear em Portugal, onde conheceu José Ermírio de Moraes. Este vinha de uma família de usineiros pernambucanos. Sua mãe, viúva prematura, desdobrara-se para que José não crescesse enraizado nos canaviais. De fato, ele formou-se engenheiro de minas nos Estados Unidos, em 1916. E mais tarde veio a casar-se com Helena, filha do sapateiro que se tornou milionário. José assumiu as empresas do sogro e deu a elas um novo viço. A Votorantim ingressou pelos caminhos do cimento, da cerâmica, da metalurgia.
Assim, Antônio Ermírio nasceu em berço de ouro, mas trabalhou ao lado do pai desde garoto, e logo que terminou o curso de engenharia assumiu, na prática, a administração dos negócios da família. Sempre foi austero no trabalho como na vida pessoal. Casou-se com a primeira namorada. Reúne filhos e netos ao menos uma vez por semana. Chegou a se aventurar na política, mas descobriu que lhe faltava talento para a coisa. Também enveredou por outros caminhos inusitados – o das letras e o dos espetáculos. Escreveu peças teatrais, administrou diretores e atores, foi aplaudido e paparicado.
Um empresário prático e objetivo? Isso é pouco. Antônio Ermírio é emotivo. E quem quiser comprovar, faça uma experiência: pedir que ele fale sobre seu trabalho voluntário como administrador do Hospital Beneficência Portuguesa. Melhor, não sobre seu trabalho, mas sobre o hospital em si. É uma paixão. Entre tantas.
As informações que compõem esse texto resultam de uma série de entrevistas. Ele falou de ética e eficiência na gestão pública em reportagem de capa da revista Forum & Negocios em 2005. Há uma reportagem especial disponível em http://veja.abril.com.br/030698/p_136.html
A granma brings hope to Liberia

Ellen Johnson-Sirleaf, a widow mother of four and grandmother of seven, the first democratically elected female president in continental Africa, can be reelected. Yes, because she announced the decision to be a candidate for president in the up-coming 2011 general and presidential elections. And her background is positive.
At the past four years, Ellen Johnson-Sirleaf, who is called `The Iron Lady`, has introduced a program to improve transparency and make the best use of public funds. She has also taken steps to attract foreign investors and help rebuild the country – so, the nation’s economy had recovered remarkably, but the situation is still quite fragile.
A former World Bank and United Nations Development Program (UNDP) executive, she was elected the president of Liberia in October 2005 – with a difficult job to do. Between 2000 and 2004, Liberia’s economy recorded a negative growth figure of -9.6%. The country and its population were suffering. A civil war had just finished, and the peace was not well stabilized when Ellen Johnson-Sirleaf assumed her post. Indeed, peace is not a well understanding word between the Liberians. On March, for example, there was ethnically-based violence with religious undertones.
The situation seems a little paradoxical. The meaning of the name Liberia, the only country in West Africa that was never a colony of western nations, is “Land of freedom”. However, the country`s history has been marked by conflicts since its inception. Founded in 1847 by an organization established in the United States to create a home for freed slaves, and to avoid racial strife, Liberia was born a republic with a constitution inspired by that of the USA.
The problem was that, since the beginning, there was too much concentration of political power and wealth in the hands of the former slaves and their descendants. The consequence was a coup led by Master-Sergeant Samuel Doe that suspended the constitution and established military rule in 1980. Doe held power for 10 years in a regime marked by rising inflation, unemployment and human rights violations.
Then, in 1990, a civil war removed Sergeant Samuel Doe from office – and the things did not get better. The country`s next ruler was Charles Taylor, a member of the minority American-Liberians. He was arrested in 2006 and sent to the International Criminal Court in The Hague, Netherlands. Charles Ghankay Taylor faces an 11-count indictment for crimes against humanity like pillage, terrorism, murder, rape, outrages upon personal dignity, and conscripting children under the age of 15 years into armed forces.
Estimates are that during 14 years of war, over 270,000 people died and hundreds of thousands were displaced. The country’s economy and basic infrastructure were destroyed, including its roads, ports, factories and communications systems. Although endowed with natural wealth (fertile soil; minerals including iron, diamonds and gold; and rubber and wood), Liberia experienced a sharp descent into poverty and remains one of the poorest countries in the world.
Whereas the International Criminal Court in The Hague can put an end to the career and political ambitions of Charles Taylor, there is a real possibility for Ellen Johnson-Sirleaf to win the next presidential elections in 2011 – and establish lasting peace in her country.
This text is a version of an article published at Odebrecht Informa Magazine, on http://www.odebrechtonline.com.br/materias/01601-01700/1641/
Oscar Niemeyer

Oscar Niemeyer is one of the most influential names in the international modern architecture; a pioneer in the exploration of the artistic possibilities of building with reinforced concrete.
“I like to experiment the possibilities of the materials, to create and be audacious. Architecture is invention. It must both astonish and help improve people’s lives. All my life, I have felt like someone who is climbing up towards my dream.”
“I like to experiment the possibilities of the materials, to create and be audacious. Architecture is invention. It must both astonish and help improve people’s lives. All my life, I have felt like someone who is climbing up towards my dream.”
With over 100 years old, he has a rigid routine: gets up early and goes to bed late, getting the most out of each day, including some uncommon pleasures at his age. Niemeyer still smokes, enjoys a good glass of wine and indulges in long good-humored conversations with friends on a wide range of topics.
Born in Rio de Janeiro in 1907, Oscar Ribeiro de Almeida de Niemeyer Soares Filho graduated in architecture in 1934 from the National School of Fine Arts. By 1936, he had joined the planning commission for the Ministry of Education and Health headquarters building in Rio de Janeiro, under the supervision of Swiss architect Le Corbusier. After that, he never stopped designing buildings, plazas and other spaces for every imaginable purpose in Brazil and abroad. In the late 1950s Niemeyer designed Brasilia, the Brazilian capital.
Born in Rio de Janeiro in 1907, Oscar Ribeiro de Almeida de Niemeyer Soares Filho graduated in architecture in 1934 from the National School of Fine Arts. By 1936, he had joined the planning commission for the Ministry of Education and Health headquarters building in Rio de Janeiro, under the supervision of Swiss architect Le Corbusier. After that, he never stopped designing buildings, plazas and other spaces for every imaginable purpose in Brazil and abroad. In the late 1950s Niemeyer designed Brasilia, the Brazilian capital.
Around the world, his hallmark is reinforced-concrete buildings with sinuous shapes and large open spaces and public areas. Among many others, they include the UN building in New York City, Mentouri Constantine University and the Algiers mosque in Algeria; the head office of the Mondatori publishing company in Milan, Italy; and the Museum of Modern Art in Caracas, Venezuela. Recently, the number of commissions has increased, and hundreds of cultural centers designed by Niemeyer are being built in Chile, Argentina, Spain and Italy.
What does he think about his long and rich life? “A hundred years is nothing। The important thing is living every minute. When I look back, I see that I have made no concessions and followed a good path.”
Photo: Luciana De Francesco
Visit www.niemeyer.org.br
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