quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Brazilian indigenous victories


I invite you to know Rogerio Ferreira da Silva. He is a Brazilian indigenous man that belongs to ethnic group Terena, from the municipality of Miranda, in Mato Grosso do Sul. He is also a doctor: defended doctoral thesis at the State University of Londrina, Paraná, after doing a research that can contribute to the sustainability of agriculture.
Today the Terena people are about 19 thousand persons. They used to be farmers and continue preserving their ethnic identity. However, the recent population growth brings serious social problems, as the exodus to cities. As population density is high, the Terenas face subhuman conditions of work in farms and factories, diseases and general low quality of life.
Rogerio do not want this kind of life.

Children and the world’s future

Teachers were the first to acknowledge they are dealing with children who go to classrooms at seven years old with knowledge, interests and curiosities they cannot correspond. They feel that children become bored with traditional education methods. "We know that kid’s education must change radically", says Elvira Souza Lima, a Brazilian who does research about child brain and new methods of education at Stanford University, in the United States.

Many parents also realize that there is something fascinating in the quality of the surprising and usually disconcerting questions of their small children. Says the American neuroscientist Gerald Edelman: “I do not know if the children of today are more imaginative or happier, but they are more attuned to the culture of their time. I think this is the first children generation that is at the forefront of a change in society.”

A report of the Dana Alliance for Brain Initiatives, which brings together 173 neuroscientists focused on issues involving the functioning of the brain, cites more than 100 discoveries made recently in this area. One is about the effect of technologic evolution in brain’s children physical stimulation. Scientists are discovering with amazement that, physically, the children’s brains develop more than their ancestors’ do. Their 1.5 kilogram of brain mass, with 100 billion nerve cells linked each other by an unimaginable network of 100 trillion connections receive much more sound stimuli, visual, olfactory and intellectual challenges.

Researchers from Baylor College of Medicine in Houston, USA used two machines that allow them to observe the brain in operation and determine which neurons activate to solve a problem. They found that the brain’s development of children who do not play much and do not have much physical contact with others is 20% to 30% lower than normal for their age. Deprived of a stimulating environment, the child's brain suffers. At the other hand, richer experiences produce richer brains. “Experience is the chief architect of the brain”, says Bruce Perry, one of the researchers from Baylor.

Harry Chugani, a researcher from Wayne State University in Detroit, usually compares the different areas of children's brain to a road system. “Lanes are enhanced the more intense traffic is. Those that are rarely used remain full of holes or covered with weeds."

Brilliant children have always existed. The phenomenon registered now is not the population of geniuses' explosion. What the experts are detecting is an upward movement at children’s average performance – and the necessity of education methods’ adaptation. The today’s children are not linear thinking persons: their brains deal with a combination of images. The difference between this and the past generations is similar of that between the book and the video.

Dealing with young minds is a dramatic challenge for parents and teachers who grow in a world in which following the book was a guarantee to achieve knowledge; and the only source of information was the master’s experience. Many fundamental changes have already occurred. When the time comes, it is possible today’s children could stop the lack between dream and reality.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Diplomacia Especial


Um senhor elegantíssimo, entrando na casa dos 80 anos de idade. Terno impecável. Fala tranquila. E histórias de arrepiar. O embaixador aposentado Ovídio de Andrade Melo, nascido em Barra do Piraí, no Rio de Janeiro, é pintor: artista primitivo que assina Juca seus quadros que retratam do metrô de Londres a paisagens africanas. Também é escritor: publicou “Recordações de um removedor de mofo do Itamaraty: relatos da política externa de 1948 à atualidade”.

Conversei com ele em 2009 por outro motivo. Ovídio Melo foi nosso homem no processo de independência de Angola. O trabalho que realizou resultou num marco. Em 1975, em plena guerra fria, o Brasil, sob regime militar de direita, foi o primeiro país a reconhecer a independência da República Popular de Angola e o governo de Agostinho Neto, presidente do Movimento Popular de Libertação de Angola, o MPLA, apoiado pela União Soviética.

O presidente do Brasil era o general Ernesto Geisel. Seu chanceler, Azeredo da Silveira. Na política externa, por razões conjunturais e de humor de Geisel, o tom era de autonomia em relação aos Estados Unidos. Ovídio, que estava baseado em Londres, esteve na África por várias vezes, no início de 1975, para conversar com os movimentos de libertação das colônias portuguesas, em especial Angola, e conseguir espaço para que o Brasil estabelecesse uma espécie de missão diplomática antecipada, acompanhasse a transição para a independência e planejasse relações futuras entre os países.

A Representação Especial do Brasil em Luanda recebeu carta branca. O embaixador e sua esposa Ivony Melo desembarcaram no aeroporto da capital angolana em março de 1975, em meio a uma guerra-civil acirrada. A missão de contatar lideranças dos três movimentos independentistas, e analisar a situação local, não seria assim tão complicada se estivessem os três partidos estabelecidos em Luanda; se houvesse água, luz, meios de comunicação. Não era o caso. Angola estava em situação caótica.

Aqui vão algumas das aventuras vividas pelo diplomata brasileiro em Angola. Reunidas, suas experiências dariam um romance ao estilo Graham Greene.

Para falar com Jonas Savimbi, chefe da União Nacional para a Independência Total de Angola, a UNITA, foi preciso tomar um carro emprestado a um engenheiro português e percorrer estradas esburacadas por mais de quatro horas, até a pequena cidade de Silva Porto, na província de Huambo, no sudeste do país. Ali nascera Savimbi e ali, também, estava instalado seu quartel-general. O casal foi parado e revistado várias vezes nas ruas de Silva Porto, a caminho do hotel onde seria recebido. Depois, novamente, na sala do primeiro andar onde o encontro de poucos minutos, que nem rendeu muita troca de ideias, foi assistido por guerrilheiros armados postados ao lado de portas e janelas.

Segunda parada: Kinshasa, a capital da República Democrática do Congo, para um encontro previamente agendado com o chefe da Frente Nacional de Libertação de Angola, FNLA, Holden Roberto. Este, durante toda a reunião, falou de si, de seu poder, seus feitos, e sua importância como defensor da democracia e do Ocidente na África.

Dias depois, Ovídio Melo estava em Nairóbi. Queria marcar entrevista com Agostinho Neto em Dar El Salaan, na Tanzânia, onde o MPLA tinha escritório. Soube que o líder do Movimento iria voar bem cedo, no dia seguinte, e se dispunha a conceder a entrevista no aeroporto de Nairóbi, onde faria uma escala rápida. Mas o embaixador brasileiro andava meio cansado de conversas rápidas. Queria mais. Na mesma noite foi para Dar El Salaan disposto a voltar no avião em que Agostinho Neto embarcaria na manhã seguinte. Resultado: a conversa durou todo o trajeto entre as duas capitais africanas. E Ovídio Melo soube que aquela viagem tinha significado histórico e sentimental para Agostinho e sua comitiva. Era o fim do exílio do MPLA na Tanzânia. Depois da escala em Nairóbi todos seguiriam para Luanda, aonde chegariam em 4 de fevereiro, data do início da luta pela independência em Angola.

Por volta de um mês antes de 11 de novembro, o dia da Independência de Angola, o Embaixador conversou com o Brasil e enviou correspondência com suas observações e recomendações ao Itamaraty. Recorda que argumentou:

“Tínhamos sido respeitosos para com todos os movimentos organizados em Angola, tínhamos sido neutros em todas as lutas que presenciamos, tínhamos desejado chegar cedo a Luanda para planejar as relações futuras. Deveríamos, então, reconhecer Angola na data exata da Independência, porque estivemos sempre, e estaremos no futuro, irmanados pela língua, pela cultura, pela História."

Assim foi. No mesmo momento em que Agostinho Neto proclamava a independência em Luanda, o governo brasileiro divulgava, em Brasília, nota de reconhecimento do novo país e de seu governo.

O Embaixador Ovídio estava na sacada do Palácio quando Agostinho Neto discursou. Era o único chefe de repartições consulares a permanecer em Luanda. Não apenas testemunhou a posse do novo presidente angolano: assistiu as manifestações populares e participou das comemorações do MPLA. Dois meses depois estava de volta a Londres. Dali foi ser Embaixador na Tailândia, onde acompanhou os rescaldos da terminada guerra do Vietnam. Mas esta é outra história.

A foto, que me foi enviada pelo Embaixador Ovídio Melo, é datada de 1975. Nela aparece também a embaixatriz Ivony Melo.

Olhar 45

Ele judeu húngaro imigrado no pós-guerra, vendedor de brindes. Ela presbiteriana, professora na rede pública do estado. Conheceram-se num ponto de ônibus, em tarde de chuva. Namoraram contra a vontade das famílias. Casaram sem renda que garantisse confortos mínimos. Logo tiveram filhos – dois, um após o outro. Moravam num apartamento minúsculo, as crianças sem espaço para brincar.

Ela deixou a roupa limpa sobre a cama para passar quando voltasse da escola. Ao chegar, deu com os garotos às gargalhadas, pulando no colchão e nas roupas com os pezinhos imundos.

Olhar fulminante. Parada geral.

Hoje os filhos são quatro. Os netos, sete. Todo o conforto. Mas ela não esquece aquele dia – a dor, o sofrimento, o desespero... E a veemência com que encarou os moleques, afinal tão divertidos, inocentes e ignorantes a respeito das dificuldades da família.

Olhar 45, bala de prata.

Alguém canta um verso assim, não?

O grito da independência

Homem com mais de 50 anos não sabe fazer arroz ou feijão. Bolo, então, nem pensar. Cozinha é local de alquimia misteriosa.

Tem medo de mexer na máquina de lavar roupa. Na lavanderia, só chega perto do tanque – e olhe lá.

Desmanchou a barra da calça? Despregou o botão da camisa? Ah, melhor descartar a roupa!

Criança chorando? Mamadeira? Troca de fraldas? Se tiver netos, nunca topará ficar sozinho com eles!

Mulher é bicho esperto. Rainha do lar por séculos. Saber é poder.

Um dia ele descobre ser capaz de fazer arroz soltinho. Feijão com caldo grossinho. Carnes variadas ao forno. Legumes na manteiga. Tudo em 20 minutos. Refeições de gourmet sem mistério ou sofrimento.

Independência, afinal!!

domingo, 5 de setembro de 2010

Viver perigosamente IV

A rua, recém-alargada, se transformara numa estrada de três pistas em cada mão, ligando São Paulo a Diadema. O caminho, antes congestionado, ficara com trânsito fácil. Mas não havia sinalização, radar de controle de velocidade ou obrigatoriedade de uso de cinto de segurança.

O caminhão parou no alto de uma lombada, atravessado no meio da avenida, para fazer uma manobra. Quem vinha naquela direção não tinha como perceber o risco que corria.

Ruídos de freios e buzinas, rodas sobre o canteiro central, xingamentos.

No primeiro farol vermelho, o motorista abriu a porta da cabine do caminhão, desceu, e acertou a mão espalmada no rosto de uma mulher grávida que dirigia seu Fiat 147 com o pensamento distante.

– Isso é pra você aprender a ter educação!

Virou-se e desapareceu.

Os carros voltaram a rodar. A mulher nunca mais tocou na buzina.

Presente quase perfeito

Não era bem uma feira. Também não se podia dizer que fosse uma rua de comércio. Mas era. Ambas as coisas. Uma feira montada em barracos de madeira. Uma rua de comércio de artesanato para turistas. Estreita, ziguezagueava num morro do centro da capital da Libéria, Monróvia.

Nem um só mulato, nem um único branco. Faltavam turistas. Havia vendedores em excesso. O artesanato era pouco. Mas foi ali que comprei o banquinho encomendado por um amigo artista e colecionador. Lindo. Indiscutivelmente africano. Diferente de tudo o que eu já havia visto.

O banquinho saiu da Libéria, passou por Angola, fez parada em Portugal e chegou a São Paulo. Seria o presente perfeito.

Dois anos depois, continua em minha casa. O amigo espera, pacientemente. Sabe que a encomenda veio. Apenas preciso conseguir entregá-la...

Viver perigosamente III

Chovia há mais de mês. Num bairro de ricos, apenas 26 quilômetros distante do centro da capital paulista, a rua de terra, sem saída, estava impedida. Um lamaçal intransponível se formara. Sete famílias ilhadas.

No final do caminho havia uma porteira: estrada para um sítio de hortaliças. Para chegar a médico, escola, mercado, as pessoas abriram a porteira. Por ali alcançavam a estrada mais próxima.

Um dia veio o aviso: quem passar leva bala. Muitos levaram a sério. Outros não.

Viver perigosamente II

1985. Alta Floresta, Mato Grosso. Pista de pouso de chão batido. Um voo comercial por semana para Porto Velho, em Rondônia. Movimento incessante de aviões pequenos.

Ruas retas e largas. Calor e vento. Poeira em suspensão. Tudo era amarelo, inclusive as folhas das árvores amazônicas.

Uma única pensão com telefone – fachada amarela. Para chegar, só a pé. Um refrigerante custava o mesmo que um bom vinho francês em São Paulo.

Área de garimpo. Barrancos em beira de rio. Milhares de homens enfrentando doença, fome, violência.

O diretor da empresa que ganhara do governo o direito de explorar a região, e expulsava os garimpeiros, tinha uma casa no alto de um morro. Portas e batentes vermelhos. Era ali que fazia reuniões, cercado por guachebas armados.

Espalhou fotos sobre a mesa. Naquela semana mais de cem pessoas haviam sido mortas num barranco. Chacina não noticiada.

Viver perigosamente I

Estrada longa. Nem uma casinha, nem uma plantação, nem um posto de gasolina.
Passou um. Deixa passar. Deve haver outro logo ali.
Algumas vezes havia. Outras não.
Carro no acostamento, carona até a cidade mais próxima, carona de volta.
Até o combustível chegar à reserva e tudo recomeçar.

sábado, 4 de setembro de 2010

Frases

Desde ontem tento lembrar quem disse ou escreveu:

"Marx morreu, Freud morreu, Nietzche morreu e eu mesmo não estou me sentindo muito bem..."

Família sem fronteiras

Ela da Paraíba. Geraldina, empregada doméstica. Ele de Pernambuco. José, pedreiro. Moravam numa favela do lado de lá do Lago Norte, em Brasília. Seus filhos: Washington e Wellington.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Mãe de primeira, segunda, terceira viagens...

Esse texto também poderia ter como títulos Pediatras Perigosos, ou A Sabedoria das Tias. As histórias se passaram com crianças, tias e pediatras diferentes. São algumas, de uma coleção enorme. E são reais.

O pediatra foi minucioso. Bebês são frágeis. Nunca deixe que ninguém toque em seu filho sem antes lavar as mãos com sabão e depois passar álcool. Todo o ambiente em torno da criança deve ser esterizilado, asséptico. Amamentação no peito até um ano. Aos seis meses, começam as papinhas – sempre feitas com vegetais comprados na feira do dia (nada de supermercado, que estoca coisas congeladas).
Tudo compreendido, o bebê seguiu para casa para ficar isolado e limpíssimo. Um dia, num passeio ao sítio, a mãe se distraiu. A criança estava com uma tia experiente. Por via das dúvidas... Foi dar uma espiada. Bebê no chão de terra, chupando jabuticaba, com a cara roxinha e rindo à solta.
– Ele precisa viver, minha filha!
Viveu. Forte e saudável. E 30 anos depois ainda adora jabuticabas.

Ele era faminto. Mamava até se esbaldar. Bebê gordinho, de pele lisinha; sempre risonho e bem humorado. Um dia deu de chorar. Muito.
O pediatra disse que o comportamento era normal, que havia bebês deprimidos. Paciência. Então, durante a visita de uma tia, essa criança se esgoelou no berço.
– Minha filha, ele está com fome!
Foi só complementar a mamada do peito com uma mamadeira que o bebê voltou a sorrir. Deprimido nada: ele estava faminto!
Sempre foi assim. Adolescente, adulto, sempre perde o humor quando não se alimenta direito.

A criança sentada no cadeirão, na sala de jantar. Ainda não comia sozinha – o pediatra dissera que se alimentaria melhor se a comida lhe viesse à boca... A tia se ofereceu para a tarefa. Minutos depois, uma bronca:
– Minha filha, além de não comer sozinho ele não mastiga! Você precisa ensinar!
E toca mastigar, para o bebê imitar os movimentos e não engolir a comida como uma massa de concreto...

Férias na casa da tia. Sempre uma festa. Todos se preparam e embarcam felizinhos no carro. No final da temporada, a grande novidade:
– Mãe, a tia ensinou a gente a comer de garfo e faca!

Tarefas Simples I

Como lavar um tapete rústico, grande, que um dia foi branco.

1. Encha o tanque de sua lavanderia com água, sabão em pó e alvejante (água sanitária).
2. Arraste o tapete até a lavanderia e coloque-o de molho no tanque – com atenção para que não restem dobras e todo ele fique umedecido.
3. Duas vezes ao dia, por três dias, mexa o tecido na água, levantando umas partes e baixando outras, e aproveite para escovar as partes mais escurecidas.
4. Na manhã do quarto dia, vista uma roupa de guerra. Ponha meio corpo dentro do tanque para tirar a tampa do ralo. Você irá descobrir que, mesmo com o tanque vazio, o tapete permanece encharcado e pesadíssimo. Cuidado. Puxe-o para fora devagar.
5. O chão da lavanderia deverá ter sido limpo para receber o tapete, quando você finalmente conseguir derrubá-lo ao solo.
6. Esqueça a vassoura. Ela não é forte o bastante para a esfregação que terá de ser feita. Estique o tapete, se possível por partes, ponha-se de joelhos e, com uma escova de mão de cerdas duras, limpe pedaço por pedaço.
7. Então puxe uma mangueira para começar o enxágue. Deixe a água correr sobre o tecido e puxe o excesso com um rodo.
8. Para que o tapete fique livre de sabão, você terá de erguê-lo. Para isso pode ser útil uma dessas escadinhas que a gente usa dentro de casa. Respire fundo e cumpra a tarefa por etapas. Palavrões são normais, mas não desista. Pegue uma das pontas do tapete e apoie no joelho, depois no ombro, então na escada – com cuidado para que ela não vire com o peso. Depois puxe outra parte. Até que o tapete fique mais ou menos na vertical, para um enxágue mais efetivo.
9. Deixe correr muita água, e aproveite para passar a escova na sujeira que restou.
10. Depois de um dia escorrendo na lavanderia, provavelmente o tapete já estará leve o bastante para que você o leve ao sol. Mas atenção: não tente tirá-lo da escada – arraste a armação inteira para o quintal. Com tempo seco, ele poderá ser recolhido ao final do dia.
11. Dobre e guarde para nunca mais usar. Ou da próxima vez use a cabeça e mande o tapete para a lavanderia.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Reminiscências



Cabelos brancos como nuvem em céu de verão, aos 81 anos de idade minha mãe embarcou num navio rumo à Itália – como a reviver o percurso que fez para o Brasil quando tinha sete anos de idade, em 1935 ou 1936. Foram muitas experiências em 14 dias, uma delas o exercício de memória.

Mamãe viajou da Itália para o Brasil com sua mãe, duas irmãs e dois irmãos. O navio era de madeira escura, em seu camarote havia janelas redondas e beliches (ela dormia na cama de cima).

Os marinheiros jogavam restos de comida ao mar, para os peixes. Uma vez ela debruçou no parapeito, para ver o rebuliço... E foi segura pelo braço por um dos irmãos, preocupadíssimo com o risco de uma queda na água. Caçula de 12 irmãos, não tinha sossego para inventar qualquer reinação...

Na galeria de fotos do navio moderno em que agora viajávamos, minha mãe descobriu imagens dos tempos antigos. As embarcações, as pessoas, o modo de vestir e de se comportar. Reorganizou as lembranças da sua vida.

Contou e recontou histórias. Cada vez com mais detalhes, cada vez mais coloridas. Tudo foi gravado e, aos poucos, será escrito.

Con te Partiró





O navio começava a se afastar da muralha de pedra que fica entre o Mar Adriático e a cidade de Dubrovnick, capital da Croácia, Patrimônio da Humanidade, quando a orquestra começou a tocar Con te Partiró.

Estávamos bem acomodadas, eu e minha mãe, depois de um passeio por castelos e jardins de todas as idades. Árvores tão antigas como as paredes abaladas por terremotos e guerras – em permanente restauração.

A faixa de mar que nos separava da terra alargava a cada instante. Ilhas, histórias, pessoas... Tudo poderia ser esquecido no minuto seguinte. Não havia como não chorar. Ainda mais ao som daquela música.

Mas viajar de navio é assim. Chegar e partir - não ficar. Rumávamos para a Itália. Próxima parada, Veneza. Tudo bem. Na Itália ficaríamos.

Pescados Capitales




O título desse texto é o nome de um restaurante em Lima, no Peru. Fomos para lá como um refresco, depois de termos enfrentado uma maratona de viagens pelo país. Comer bem é sempre bom. O ambiente é arejado e claro, com telhado de palha trançada, muito verde e madeira rústica. O cardápio é um livro. Os pratos são classificados por tipo de pecado: santa ira, luxúria freudiana, sentimentos de culpa... E por aí vai. O que pedir?

Primeira coisa que aprendemos: pisco se toma bom, e puro. Se preferir pisco saur, peça sin uevos (na receita con uevos o pisco é batido com clara de ovo...). Estávamos Bob, Samuel e eu. Os dois comportadíssimos. Eu observando para ver se descobria o prato mais pedido na casa.

Foi assim que vi, numa mesa, três senhoras que já haviam terminado o almoço, mas continuavam tomando pisco a hablar e hablar. Era com elas que eu iria resolver meu problema. Levantei, me apresentei, e expliquei que queria uma recomendação – saber o que de melhor se poderia provar entre os pecados que o cardápio oferecia.

Gabriela, uma das minhas novas amigas, logo chamou o maître e encomendou “aquele peixe, como eu gosto, para a senhora”. Nunca soube que peixe era, mas não importa. A questão estava encerrada. Sentei. Soube que Gabi viera ao Brasil quando jovem, que ficara encantada, que guardava belas lembranças. Bem que apresentei meus amigos às três peruanas, mas eles preferiram sair logo da vizinhança...

Nosso almoço correu assim. Bob e Samuel ficaram borocochôs – os pratos que escolheram não tinham nada de especial. O meu era lindo e apetitoso. À saída, as três, que permaneciam no restaurante, nos propuseram um brinde com um copito de pisco produzido em Ica, a terra de Gabi.

Conversamos, eu e Gabriela, por no máximo meia hora. Isso em 2007. Nunca mais deixamos de nos corresponder por email.

Se ficar curioso, dê uma passeada pelo site do restaurante:
http://www.pescadoscapitales.com/

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Visita a um boneco de cera

Quem, tendo vivido a revolução cultural dos anos 1960, e estando em Moscou, não enfrentaria a fila que fosse para ver o corpo do líder revolucionário Vladimir Ilitch Ulianov, o Lênin, fundador do Estado Soviético, na Praça Vermelha?


Pois é. Odeio filas, mas queria ver não apenas o Mausoléu de Lênin: estava curiosa para passar pelo túmulo de John Reed, jornalista cujo livro “Dez Dias que Abalaram o Mundo” eu lera e relera. Acordei cedo, tirei meus filhos da cama, e fomos buscar um lugar na multidão que se acotovelava para fazer o passeio.


Entramos na construção de granito e mármore. Passamos por revista – o que é rotina na Rússia, onde quer que se vá. E finalmente pusemos os pés num salão frio, úmido, escuro, com uma caixa de vidro ao centro, e, dentro, o corpo de Lênin. Ou um boneco de cera.


Tudo era muito irreal. Nossos olhos não se acostumavam facilmente àquela luminosidade, os guardas faziam com que a fila andasse rápido demais para uma observação cuidadosa, e aquele corpo, embalsamado em 1924 e tantas vezes retocado e maquiado, provocava menos sensações do que uma estátua numa praça qualquer... Uma decepção. Assim como a placa no túmulo de John Reed, num cemitério colado ao muro do Kremlin onde estão também os restos de Yuri Gagarin e Maximo Gorki – para ficar em nomes que não causam desconforto.


À saída, concluímos que estávamos interessados em história – mas em nada de insalubre.

Todos conhecem a cara do Kremlin, e é proibido fotografar no interior do Mausoléu de Lênin - o que nos interessaria aqui. Este texto, portanto, fica sem ilustração.

Uma irmã perspicaz


Em Paris, saí acompanhada por uma dupla de amigos dispostos a passear por lugares pouco turísticos. Fomos parar na Rue du Bac, entre prédios e uma multidão de gente apressada em horário de almoço – e, no meio daquilo, num antigo convento onde fica a Capela da Medalha Milagrosa.

A construção era interessante, mas não tinha nada de tão especial. O cheiro das velas não me agradava. E, para completar, ainda havia o corpo de uma freira com a pele branquinha, branquinha, como se tivesse morrido no dia anterior, exposto numa caixa de vidro, com uma cadeira ao lado.

Passeio funéreo. Minha vontade era sair dali rapidinho. Mas meus dois companheiros eram ótimos contadores de histórias e aos poucos a coisa ficou interessante.

Catarina Labouré, aquela que estava na caixa de vidro, nascera no início dos anos 1800. Órfã, fora enviada ao convento das Irmãs de Caridade, e ali trabalhara muito. Ajudara pessoas carentes, promovera cursos de alfabetização... Era considerada uma benfeitora entre os franceses mais pobres. Quando estava com mais ou menos 30 anos de idade, teve visões de Nossa Senhora – sentada naquela cadeira posta ao lado de sua redoma. A irmã Catarina chegava perto, Nossa Senhora deitava o rosto da moça em seu colo e lhe dizia algumas palavras. Numa dessas vezes, orientou-a a mandar cunhar uma medalha com a imagem que via – a Medalha Milagrosa, que deveria conter a inscrição “Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a Vós”. O pedido foi satisfeito.

Catarina Labouré morreu em 1876. Cinquenta e sete anos depois, em 1933, em meio a uma reforma da Capela de Reuilly, seu corpo foi exumado. Sem que tivesse sido embalsamado, estava incorrupto como se o tempo não houvesse passado. Foi então transferido para a Capela da Rue du Bac e instalado sob o altar da Virgem.

Por se ter mantido íntegra, pelas obras que realizou, pelas visões que teve, ou pela soma de tudo isso, Catarina foi canonizada em 1947. Tornou-se a Santa Catarina Labouré.

Eu estava satisfeita. Saímos. Fui buscar lembrancinhas ao lado da capela, numa lojinha que vende medalhas e imagens de todos os materiais, tamanhos e preços. Mexi, revirei, conversei, e decidi levar um saquinho plástico com umas tantas medalhinhas. Na hora de pagar, a freirinha minúscula postada do outro lado do balcão me olhou indignada e, num português de quem nascera no Nordeste brasileiro, disse:

– Mas a senhora não pode levar as medalhas sem que sejam bentas pelo padre!

Susto.

– Madre, a senhora é brasileira?

Claro que sim. Aquela fala não dava margem a dúvidas. Acontece que em Recife, quando ela era menina e muito pobre, havia uma Congregação das Irmãs de Caridade. As irmãs a adotaram e levaram-na para a França. E como ela havia muitas brasileiras na irmandade, por todo o mundo...

Soube então que o padre demoraria três horas para chegar, e a cerimônia de unção das medalhas tomaria outra hora. Era demais. Expliquei que não esperava milagres – que meu interesse tinha a ver com a memória, com objetos capazes de fazer histórias aflorarem à minha mente. Ela riu.

– Normalmente os brasileiros não são assim... Mas as medalhas vão lhe fazer bem de todo modo.

Fizeram. Aqui estou eu a escrever esta história.

Embora tenha a medalha ao lado do computador enquanto escrevo, as fotos aqui reproduzidas não são dela: foram retiradas da Wikimedia Commons.

Caldo de Camarões

Longo, curto, com mais ou menos detalhes, um causo com cada título ou várias passagens que componham o quadro de uma pessoa ou um lugar. 
Gente Boa II, a história de Belo, foi reescrita e republicada quatro vezes até que ficasse mais ou menos no jeito. 
Agora, faço a mesma história de duas formas, e ambas ficam no ar. Esta é uma segunda versão de Atleta da Cozinha Mexicana. Escrever é isso. Reformar, reorganizar, repensar, cortar palavras.


Era o melhor caldo de camarões que se poderia provar no México. Quiçá no mundo. Um néctar para duas mulheres sequestradas, presas e incomunicáveis na cidade de Gustavo Diaz Ordaz, no meio do deserto de areias escuras de Sinaloa. Ao menos era assim que nos sentíamos.

O cozinheiro, um homem alto, espigado, com um avental branco improvável naquela cidadezinha, sorria feliz. Nosso deleite era indisfarçável. Repetimos, evidentemente, para saborear de verdade, porque o primeiro prato fora um matambre (embora não fosse churrasco uruguaio...).

Antes, tínhamos até discutido a possibilidade de ir a uma das centenas de barracas de rua que vendem ostras negras enormes, anunciadas em cartazes de papelão, tão famintas estávamos. Mas um rapaz nos explicou que aqueles frutos do mar eram contaminados. E foi ele que nos convidou para jantar no restaurante do tio – o tal que nos servia o maravilhoso caldo de camarões. Era um professor de Educação Física aposentado. Sempre gostara de cozinhar. Montara seu restaurante no quintal de casa, entre vasos de flores e árvores.

Não sabíamos quem era o rapaz. Aliás, nem sabíamos o que fazíamos ali depois do anoitecer. Nosso projeto fora dar um pulo à cidade, visitar uma região de assentamento de agricultores sem-terra, e dar no pé rapidinho. Mas o dia foi passando... E nos vimos sem condução que nos levasse de volta à Cidade do México, sem conhecidos a quem pedir orientação, exaustas depois de muitas andanças e com um calor danado.

Bem, não estávamos sequestradas. O rapaz era um engenheiro agrônomo que vira nossas entrevistas. Também não estávamos presas. Alguém nos levaria ao hotel na capital. Acontece que os mexicanos percebem o tempo de forma diferente dos brasileiros. Algo como a diferença entre britânicos e brasileiros. Pontualidade é um conceito cultural, geográfico, sei lá, é muito variável... Os mexicanos nunca ficam esbaforidos. Se disserem que lhe virão buscar “ahorita, ahorita” prepare-se: pode ser que cheguem num minuto ou... No dia seguinte.

Isso ficou claro logo cedo. Quando desembarcamos na cidade, encontramos o líder de uma cooperativa de agricultores, Emilio Martínez Victoria, um campesino, como se apresentou, que se ofereceu para nos levar ao seu sítio em Fuerte Mayo. Garantiu que era bem pertinho, logo ali. Sacolejamos por mais de uma hora por uma estrada de terra mal batida.

Depois, para Emilio demonstrar o funcionamento do sistema de irrigação que implantara, foi outra novela e meia. Estávamos encantadas, gravávamos e fotografávamos tudo. O sol já começava a se por quando notamos, ao voltarmos à caminhonete, que não seguíamos em direção à cidade: nosso anfitrião resolvera nos presentear com uma subida à serra, para que tivéssemos a dimensão do que é El Carrizo, no vale do Rio Fuerte: uma imensidão de pequenos sítios produtivos. Que paisagem! Ainda mais ao sol poente!

Assim, entre estradas, sítio, deserto, serra e muita conversa, o dia passou.

Amanhecêramos com um susto. Luciana fora ameaçada de prisão porque fotografara crianças na saída de uma escola. Chegou à Prefeitura escoltada por um policial convicto de que pegara uma criminosa em ação. Mas México e Brasil têm lá suas semelhanças: eu já conhecera o prefeito e Emílio, que conversaram com o miliciano... Luciana saiu livre e com suas fotos.

Anoitecêramos numa cidade adormecida. Mas, “ahorita, ahorita”, surgiu outro engenheiro em seu corcel branco que nos levou até a Cidade do México. Um belíssimo chapéu que Luciana havia comprado no correr dessa aventura foi esquecido no banco traseiro da caminhonete. Digamos que ficou na conta do caldo de camarão... Que lamentavelmente não fotografei...

A reportagem resultante dessa viagem foi publicada na Revista Odebrecht Informa e pode ser lida no link
(http://www.odebrechtonline.com.br/materias/00801-00900/883/).