quarta-feira, 6 de maio de 2015

Tudo tem seu tempo

O velho de que se fala aqui, é claro, nem sempre foi velho. Teve uma vida muito rica de experiências diversas. E um final inusitado.
Nasceu na montanha, em uma família de professores. Leu, estudou, viajou muito, conheceu inúmeras pessoas de variadas culturas e nacionalidades. Embora seus pais tivessem certeza de que ele seria professor, como todos em sua família, esta ideia não lhe agradou. Ainda jovem tomou as rédeas de seu destino e foi ser aprendiz de carpinteiro em um bairro pobre da sua cidade.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Sabedoria ancestral

Maria Aurélia foi diferente de suas amiguinhas desde muito pequena. Gostava de brincar sozinha. Ficava quietinha por muito, muito tempo, observando uma coisa qualquer, uma formiga caminhando ou uma folha de árvore balançada pelo vento. Via coisas que os outros não notavam, como o reflexo do sol na parede, que formava uma letra A perfeita. Quando perdiam algo, logo pediam a Maria Aurélia que procurasse, pois ela encontrava, mesmo que fosse um cisco num carpete.
Era linda, de cabelos escuros e olhos verdes. Talvez por isso, talvez por ter sido sempre muito elogiada, fechou-se em copas. Era tímida no contato com as pessoas. Gostava de plantas e animais. Com esses entendia-se perfeitamente. Cachorros, gatos, pintinhos, todo tipo de bicho se sentia seguro ao lado de Maria Aurélia, que conversava com eles com uma voz muito mansa. Assim, quando ia pela rua, ela nunca estava só. Sempre era acompanhada por uma fileira de animais que brincavam de trançar entre suas pernas.
Com as plantas ela era um pouco mais dura. Mas foi nessa área que sua esquisitisse se revelou milagrosa.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

A vaca que late

Centenas, talvez milhares de pessoas tinham olhos, ouvidos, todos os sentidos cravados no palco do Parque do Ibirapuera, em São Paulo, onde Ray Charles tocava e cantava – seu último show no Brasil.

A exceção era uma menininha que viu um dog alemão muito maior do que ela ao seu lado e se encantou. Era uma fêmea de dog arlequim, branco com manchas pretas, comportada e amante da boa música, por assim dizer.
Então, com uma vozinha de soprano histérica a pequena gritou:

_ Mãe! Olha uma vaca!

E a cadela nem ligou.

Pura Maldade

Era um homem bom e gentil. Aliás, Gentil era seu nome. Estava sempre pronto a ajudar, servir, apoiar. Professor, leitor compulsivo, tinha sempre histórias para contar, e todos adoravam ouví-lo. Além disso, distribuía abraços. Apertados, afetivos. Era um caramelo. Um doce de coco. Não havia quem não gostasse de si.
Um dia, sua boina preta de riscas brancas foi encontrada no piso de um estacionamento, em meio a uma enorme poça de sangue. O mar que batia forte na amurada e respingava por todo lado não era capaz de limpar aquela violência.

Leoa à caça

Pela manhã, Maria vestia uma roupa esportiva e se mandava para o parque. Fazia longos exercícios de aquecimento na esperança de que chegasse uma companhia, de preferência um homem jovem, bonito, forte. Claro, nem sempre dava sorte. Nesse caso voltava para casa um tanto frustrada, tomava um banho com água bem quente, vestia seu jeans de todos os dias e ia para a faculdade.
No campus havia muitas possibilidades, muitas áreas de caça. Ela farejava. Alguns dias assistia às aulas, em outros ia para o Centro Acadêmico ou ficava no patio, com um café, fingindo ler alguma coisa.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Português, brasileiro ou africano?


   Li hoje Acordo Desortográfico e pus-me a pensar.


   Acabo de recolocar na estante Caim, do português Saramago. Sua leitura não teria o mesmo sabor se o texto estivesse em brasileiro. O mais recente livro do escritor angolano Pepetela foi editado em Portugal, lançado em Angola e está a ser traduzido antes de ser disponibilizado nas livrarias brasileiras. Uma pena.

domingo, 19 de junho de 2011

Parideira

Num recanto perdido no interior de Angola, ela, atarracada, forte, toda respingada da terra que usava para fazer tijolos de adobe com que construirá sua casa, sorria satisfeita quando eu cheguei.

sábado, 18 de junho de 2011

Memória

Versos que se repetem na mente a todo momento
incontroláveis
quatro meses depois

Nunca mais romance
Nunca mais cinema
Nunca mais drinque no dancing
Nunca mais cheese
Nunca uma espelunca
Uma rosa nunca
Nunca mais feliz



e, no entanto, a vida segue.....

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Gal Costa -Meu Primeiro Amor Ensaio TV Cultura 2008

Saudade

A memória tem um processo estranho... faz aflorar sons e letras há tanto tempo perdidos...
Esta me veio hoje.

Saudade palavra triste quando se perde um grande amor,
Na estrada longa da vida eu vou chorando a minha dor,
Igual uma borboleta vagando triste por sobre a flor,
Seu nome sempre em meus lábios
Irei chamando por onde for
Você nem sequer se lembra
De ouvir a voz desse sofredor
Que implora por teu carinho
Só um pouquinho do seu amor

Meu primeiro amor tão cedo acabou
Só a dor deixou neste peito meu
Meu primeiro amor foi com uma flor
Que desabrochou e logo morreu
Nesta solidão sem ter alegria
O que me alivia são meus tristes ais,
São prantos de dor que dos olhos caem
É porque bem sei quem eu tanto amei
Não verei jamais

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Always On My Mind

Maybe I didn't love you
Quite as often as I could have
Maybe I didn't treat you
Quite as good as I should have
If I made you feel second best
Girl I'm sorry I was blind

You were always on my mind
You were always on my mind

Maybe I didn't hold you
All those lonely, lonely times
And I guess I never told you
I'm so happy that you're mine
Little things I should have said and done
I just never took the time

You were always on my mind
You were always on my mind

Tell me, tell me that your
Sweet love hasn't died
And give me
Give me one more chance
To keep you satisfied
satisfied

Little things I should have
Said and done
I just never took the time

You were always on my mind

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Fado

Ela era assim. Menina de pele branca lisinha e cabelos negros, tímida, sempre de olhos baixos. Nascida e criada no interior mineiro. Vestido de babado. Sapato de boneca.

Aos 16 anos, apaixonada por um vizinho, resolveu casar. O pai se enfureceu, a mãe chorou, mas não teve remédio. O casório foi na igreja, com véu e grinalda, quase toda a cidade presente.

Os dois se mudaram para uma casa com cerca branca de madeira, jardim florido, janelas que se abriam para a rua e deixavam a brisa entrar. Até cachorro arrumaram, pra completar o cenário.

Seis meses se passaram. Num sábado, enquanto ela preparava o almoço, ele saiu de motocicleta para buscar ração logo ali pertinho. Andou dois quarteirões. Foi pego por um caminhão.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Sankay

Hoje vi imagens do prédio abandonado na TV.
O hotel em que eu e meus filhos passamos férias por muitos anos.
Sinto a dor de Geraldo e Sonia.
Sentirei sempre, amigos.

Romance inacabado

Minha memória me trai.
O caso que lembro não é exatamente o que se deu - segundo pessoas cujas memórias também não são lá muito confiáveis.
Mas o que importa é a essência.


Ela era linda. E vaidosa. Adorava se arrumar para sair - mesmo que fosse apenas até a loja de armarinhos. 


Sempre um pó de arroz, um lápis de sobrancelha, um toque de batom, os cabelos negros bem penteados, saia e blusa impecáveis.


Pouco depois dos 20 anos apaixonou-se por um rapaz. Não sei se o pai não considerou-o à sua altura. Se achava que o pretendente era pobre, tinha pouca educação, ou se sua resistência se explicava por seu mau humor - sim, porque esse pai era mesmo muito azedo. 

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Alegria fugaz

Diante da nossa casa havia um imenso terreno baldio,
uma floresta de eucaliptos onde cada dia inventávamos uma aventura.
Um buraco na terra virava um esconderijo,
bolas de mamona eram balas de canhões.
Então resolvemos montar um museu de borboletas.
Não borboletas espetadas em tábuas:
vivas, como passarinhos em gaiolas.
Seria um zoológico de borboletas coloridas aberto à visitação da vizinhança.

Compramos muito papel celofane, 
fizemos uma enorme caixa transparente no quintal e fomos à caça.
Num dia lotamos a caixa com vasos de flores e bichinhas voadoras de todas as cores e tamanhos.
No dia seguinte, antes que alguém tivesse podido apreciar nosso tesouro, demos com a caixa vazia,
o chão forrado de asas.

Há 40 anos, especialmente na primavera e no verão, 
páro tudo 
a apreciar os rodopios das borboletas.
Alegria breve, imperdível.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Como formigas

Leio a seguinte notícia:

China diz ter tecnologia para garantir combustível nuclear por 3 mil anos

A televisão estatal da China anunciou que o país desenvolveu um processo para reprocessar combustível nuclear que poderia garantir o abastecimento de suas usinas por 3 mil anos.

Há 24 anos cientistas chineses vêm trabalhando no método de reaproveitamento de combustível para reduzir a dependência do carvão e diversificar suas fontes energéticas.

O país lançou um ambicioso programa para construir diversas usinas nucleares, mas a mídia estatal afirma que o atual estoque chinês de urânio - usado no programa nuclear - é suficiente apenas para os próximos 70 anos.


Evidentemente o estoque de urânio pode ser aumentado, mas...
Quem acredita num futuro de 3 milênios?
Só chinês, mesmo!!!

Solitude


 
Do not rely completely on any other human being.   

We meet all life's greatest tests alone.  

    Agnes Macphail, 
first woman elected to Canadian Parliament

O que é, o que são, o que somos

_ Quem são os que se ameaçam e não brigam? 

_ São vermes.


Adivinha do povo Ovahelelo
Fonte: O Livro das Adivinhas Angolanas, de Américo Correia de Oliveira

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Ano Novo

Cresce a lista
das coisas que não fiz.
Das que deveria, poderia,
e principalmente das que gostaria de ter feito.