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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Emoção primordial

Compaixão. Tema de coloração religiosa às vésperas do dia de Nossa Senhora de Aparecida, padroeira do Brasil. Milhões de pessoas aflitas, flagelando-se, em prantos.

Seria demais querer entender tamanha esperança de resolver problemas da vida com uma parada na Basílica de Nossa Senhora Aparecida,  construção que mais parece um shopping center, com passarela monumental (inclusive no que diz respeito ao mau gosto) e centro de apoio ao romeiro.

Mas a compaixão sempre me interessou – especialmente a falta dela. E me ponho a fazer uma pesquisa rápida em escritos de pensadores acerca do assunto.

Para Jean-Jacques Rousseau, que formulou a teoria do bom selvagem, compaixão é sentimento natural que independe de educação – e que é responsável pela sobrevivência do gênero humano, muito mais do que a razão. Mas há idéias mais céticas.

Friedrich Nietzsche e Antoine de Saint-Exupéry falam do lado perverso da compaixão – daqueles que experimentam prazer em serem cuidados e exploram o outro; e da ambiguidade desta emoção que provoca sofrimento e satisfação. 

Passeando pela internet descubro um estudo de uma equipe do Departamento de Arqueologia da Universidade de York, na Inglaterra. 

Os pesquisadores utilizaram equipamentos de neuro-imagem para examinar evidências arqueológicas do desenvolvimento de emoções e da compaixão em humanos primitivos, de seis milhões de anos atrás até os Neandertais e os homens modernos. 

Partiram do momento em que o ancestral comum de humanos e chimpanzés experimentou a motivação para a ajuda mútua. Depois, constataram que o Homo Erectus dedicava tratamento especial a mortos queridos – o que sugere sentimento de luto.

Entre 500 mil e 40 mil anos atrás, os Homo Heidelbergensis e os Neandertais caçavam juntos, organizaram estruturas de atendimento de rotina a feridos e doentes – e há, inclusive, evidências de que ao invés de abandonarem pessoas com problemas congênitos, cuidavam delas por décadas.

Há 120 mil anos os seres humanos modernos demonstram compaixão por estranhos, animais, objetos e até conceitos abstratos. 

"Compaixão é talvez a emoção mais fundamental do ser humano e o registro arqueológico tem muito a contar sobre sua pré-história", diz Penny Spikins, que liderou a pesquisa. Não falou na falta dela. Em seres humanos sem compaixão.

O artigo sobre os sentimentos intangíveis dos seres humanos está na revista Time and Mind: chama-se Compassion from the earliest archaic to modern humans. Os pesquisadores também lançaram o livro The Prehistory of Compassion, disponível para compra online.

A foto do modelo de um homem Neandertal foi feita por Javier Trueba e é da Science Photo Library.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Sabedoria soterrada




O arqueólogo peruano Walter Alva não é lá muito parecido com Indiana Jones. Usa boina; almoça e janta em casa com a esposa; tem uma barriguinha avantajada; e provavelmente jamais será visto com um chicote na mão. Mas as emoções que vive são bem semelhantes às do personagem hollywoodiano. É um caçador de ladrões de memórias alheias – além de ser pesquisador em sítios arqueológicos e diretor de um dos mais importantes museus do Peru, o Museo Tumbas Reales de Sipán, na cidade de Chiclayo, em Lambayeque.

Foi Walter Alva quem descobriu a tumba do Señor de Sipán, imperador da civilização Mochica. Os Moches mantinham organização hierárquica imperial equiparável à do Egito Antigo, e calcula-se terem controlado a costa norte do Peru por cerca de um milênio, entre 300 antes de Cristo e 700 depois de Cristo. Alva demonstrou que este povo tinha tecnologia para construir grandes obras como canais de irrigação, pirâmides e muralhas – tudo em barro. Quando se passeia pelas cercanias do sítio arqueológico de Sipán, o que parecem ser montanhas como outras quaisquer são pirâmides ou fortificações que guardam uma história ainda pouco conhecida.


Alva começou a esquadrinhar a região em 1987, depois de ter sido alertado pela polícia de que havia saqueadores na área. Ao responder ao chamado, deu-se conta de que estavam levando dos morros de Lambayeque mais do que cacos de potes de cerâmica: havia colares de prata, esculturas rituais e muito mais sob a poeira vermelha.


O local é cenário de rituais religiosos e cemitério da nobreza da antiga civilização. Ali já foram localizados 16 túmulos. Os primeiros, do Senhor de Sipán e do Velho Senhor de Sipán, com acompanhantes, serviçais, objetos e joias. O achado mais recente, de 2010, é de tumbas que guardam os restos mortais de três pessoas: um adolescente com cerca de 13 anos de idade, uma mulher e um homem ainda não identificados.


Para Alva tudo isso é muito interessante. Pode levar à compreensão do passado peruano. Mas ele considera mais importante outro resultado. A recuperação da autoestima daqueles que vivem onde antes havia riqueza e atualmente grassa a pobreza.


– A sabedoria dos povos que eram capazes de plantar e produzir nesta região árida perdeu-se. Está sob a terra. Precisamos recuperá-la para ajudar as gentes de hoje.

A Unesco publicou entrevista com Walter Alva em http://www.unesco.org/courier/2001_04/uk/doss26.htm
O link do Museo Tumbas Reales de Sipan é www.tumbasreales.org