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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Delícias russas

Estando ou não na Rússia, se você gosta de experimentar sabores e consistências diferentes, prove varenik.

Lembra ravióli, só que a massa é de batata. Poderia ser nhoque, mas tem recheio. Ou seja, é um prato diferente. E delicioso.

É possível encontrar vareniks em rotisseries e restaurantes russos no Brasil. Mas como são raros, e não é assim tão difícil preparar o prato em casa, aqui vai a receita:

Cozinhe e passe pelo espremedor meio quilo de batatas. Misture duas colheres de queijo ralado, dois ovos e uma pitada de pimenta-do-reino e amasse bem.

Para o recheio, você pode fazer um refogado de carne moída com tomate, ou amassar meio quilo de queijo fresco com um ovo. Ah, com espinafre também fica muito bom!

Estique a massa, corte com um copo ou em quadradinhos, coloque o recheio e feche cada um, como se estivesse fazendo pastéis. 


Mergulhe os pasteizinhos na água fervente salgada por alguns minutos, retire com a escumadeira, arrume numa travessa, cubra com manteiga derretida e sirva.

É bom demais.

Sim, em matéria de delícias, é preciso lembrar ainda dos mingaus russos. São feitos com cereais variados. Compõem um café da manhã e tanto. Sem café. Esses não têm mistério. São como mingaus para bebê, mas muuuito mais grossos. Quanto aos cereais... Bem, temos de nos contentar com o que encontramos no Brasil. Os russos têm uma infinidade deles.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Visita a um boneco de cera

Quem, tendo vivido a revolução cultural dos anos 1960, e estando em Moscou, não enfrentaria a fila que fosse para ver o corpo do líder revolucionário Vladimir Ilitch Ulianov, o Lênin, fundador do Estado Soviético, na Praça Vermelha?


Pois é. Odeio filas, mas queria ver não apenas o Mausoléu de Lênin: estava curiosa para passar pelo túmulo de John Reed, jornalista cujo livro “Dez Dias que Abalaram o Mundo” eu lera e relera. Acordei cedo, tirei meus filhos da cama, e fomos buscar um lugar na multidão que se acotovelava para fazer o passeio.


Entramos na construção de granito e mármore. Passamos por revista – o que é rotina na Rússia, onde quer que se vá. E finalmente pusemos os pés num salão frio, úmido, escuro, com uma caixa de vidro ao centro, e, dentro, o corpo de Lênin. Ou um boneco de cera.


Tudo era muito irreal. Nossos olhos não se acostumavam facilmente àquela luminosidade, os guardas faziam com que a fila andasse rápido demais para uma observação cuidadosa, e aquele corpo, embalsamado em 1924 e tantas vezes retocado e maquiado, provocava menos sensações do que uma estátua numa praça qualquer... Uma decepção. Assim como a placa no túmulo de John Reed, num cemitério colado ao muro do Kremlin onde estão também os restos de Yuri Gagarin e Maximo Gorki – para ficar em nomes que não causam desconforto.


À saída, concluímos que estávamos interessados em história – mas em nada de insalubre.

Todos conhecem a cara do Kremlin, e é proibido fotografar no interior do Mausoléu de Lênin - o que nos interessaria aqui. Este texto, portanto, fica sem ilustração.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Gente que late e morde

Moscou no final do período Ieltsin – ele doente, ausente; a Rússia meio que sem rumo na economia e na política; as pessoas com uma saudade indisfarçável do autoritarismo, do comunismo, da estabilidade confortável das filas para abastecer a casa; de não ter de mostrar competência para ganhar o pão de cada dia.

Na Rússia, naquele tempo, se percebia claramente o que é um povo com uma história milenar de repressão, de desliberdade, de falta de opção. Foi assim com os czares e depois, com raros intervalos, durante o comunismo.

Semáforo? Esqueça. Acelere e passe se tiver espaço e coragem. Se for pedestre, feche os olhos e siga em frente. Chegando ao outro lado da pista, à calçada, comemore.
Ficou com fome durante suas andanças? Sim, havia portas com placas de restaurante e padaria (em cirílico, porque o alfabeto arábico ainda não havia estreado por ali) – mas entre entrar e ser atendido passavam-se minutos, às vezes horas. Não que não houvesse atendentes. Eles existiam, e até olhavam para os intrusos, mas simplesmente não se moviam. Alternativa mais fácil para matar a fome era o MacDonalds, pertinho do Kremlin. Mas as filas... Ah, as filas davam voltas em quarteirões... E os atendentes nunca entendiam os pedidos – entregavam aos cliente o que estava à mão, gostassem eles ou não.

Museus, exposições de arte, espetáculos de teatro? Muitos. Era difícil escolher. Especialmente porque só se pode permanecer em Moscou por cinco dias – a população da cidade é controlada – e nesse espaço de tempo não dá mesmo pra ver muita coisa. Então, depois de escolher, era preciso chegar ao local – o que, afinal, não era assim tão complicado, porque os metrôs moscovitas são magníficos e funcionam às mil maravilhas. Daí restava enfrentar a fila. Invariavelmente imensa. Como se toda a população russa tivesse feito a mesma escolha que você.

A descoberta decorrente da experiência foi interessante. Fila, em Moscou, é pra brasileiro, ingles, portugues, estrangeiro ver. Se você ficasse no seu lugar, esperando andar passo a passo até o guichê dos ingressos, não sairia da portaria. Volta e meia alguém metia um cotovelo na sua costela e passava à sua frente. Ou falava grosso e te deixava pra trás.

Isso valia para várias situações. Os russos adoram um corpo a corpo. E latem. Quem late mais grosso ganha a parada. Resultado: aquela turista educadinha, dócil, de repente se torna brutal. Late, grita, pisa no pé de qualquer senhorinha mais safada.

Foi assim que consegui que meus filhos comessem boas refeições em restaurantes, que víssemos as peças expostas na galeria estatal Tetyakov, que comprássemos bugigangas na legendária Rua Arbat, e até que assistíssemos ao desfile de limusines diante do restaurante que costumava ser frequentado por Stalin, de preços proibitivos.

Foi assim também que me livrei de um sujeito asqueroso quando estávamos de partida, numa escala entre Praga, Moscou e São Paulo, e tivemos de passar uma noite num hotel infecto ao qual fomos forçados a chegar, de malas em punho, no meio da noite.

Estávamos na calçada de uma avenida larga. Éramos cinco: eu e quatro filhos, as mais novas, gêmeas, com cerca de nove anos de idade. Caminhávamos em fila. De repente, longe do meio fio, mas bem perto do nosso grupo, estaciona um Lada caindo aos pedaços. Dele desce um homem trôpego, com a boca cheia de dentes de ouro. Anda em direção a uma das meninas e fala sem parar, apontando para o carro.

Sem pensar duas vezes, corri e lati, dentes à mostra como um vampiro de filme de terror.
– NIET! NIET!
Os olhos do homem mostraram espanto e medo. Ele baixou a cabeça e partiu.

No dia seguinte chegamos cedo ao aeroporto e nos plantamos diante da porta de embarque. Quem quis passar à frente foi sutilmente desestimulado. O truque de lidar com aquela gente tinha sido aprendido, definitivamente. Sorte. Houve overbooking e 14 passageiros ficaram – não na cidade de Moscou, mas retidos no aeroporto, até que outro avião com destino à América Latina os resgatasse.