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quarta-feira, 25 de abril de 2012
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
“Sê plural como o universo!”
O verso que dá título a este post é de Fernando Pessoa. Tema e inspiração.
Informação: 1317 volumes em oito idiomas, da biblioteca particular de Fernando Pessoa, inclusive manuscritos, foram digitalizados. Isso além de assinaturas, dedicatórias, anotações em margens de livros, estudos e recortes de jornais colecionados pelo poeta. Tudo está disponível no site da Casa Fernando Pessoa, de Portugal.Pessoa marcou, por exemplo, as seguintes palavras na biografia de John Keats: «O poeta é a coisa menos poética de toda a existência porque não tem identidade; ele está continuamente no lugar de outro, preenchendo outro corpo».
E escreveu Eu sou uma Antologia:
Eu sou uma antologia.
‘Screvo tão diversamente
Que, pouca ou muita a valia
Dos poemas, ninguém diria
Que o poeta é um somente.
‘Screvo tão diversamente
Que, pouca ou muita a valia
Dos poemas, ninguém diria
Que o poeta é um somente.
Assim deve ser — qualquer,
Enfim porque já o seja —
Pode ser um, porque o é.
O poeta deve ser
Mais do que um, para poder.
Enfim porque já o seja —
Pode ser um, porque o é.
O poeta deve ser
Mais do que um, para poder.
Depois para si o poeta
Deve ser poeta também.
Se ele não tem a completa
Diversidade
Não é poeta, é só alguém…
Deve ser poeta também.
Se ele não tem a completa
Diversidade
Não é poeta, é só alguém…
Eu, graças a Deus, não tenho
Nenhuma individualidade.
Sou como o mundo.
Nenhuma individualidade.
Sou como o mundo.
Curiosidades… Muitas…
O site oferece mais: escritos de outros autores portugueses. Experimente clicar na aba Banco de Poesia.
Quem gosta de Saramago, por exemplo, já leu Adivinhas?
Quem se dá quem se recusa
Quem procura quem alcança
Quem defende quem acusa
Quem se gasta quem descansa
Quem procura quem alcança
Quem defende quem acusa
Quem se gasta quem descansa
Quem faz nós quem os desata
Quem morre quem ressuscita
Quem dá a vida quem mata
Quem duvida e acredita
Quem morre quem ressuscita
Quem dá a vida quem mata
Quem duvida e acredita
Quem afirma quem desdiz
Quem se arrepende quem não
Quem é feliz infeliz
Quem é quem é coração
Quem se arrepende quem não
Quem é feliz infeliz
Quem é quem é coração
E quem conhece Manuel Maria l' Hedoux de Barbosa du Bocage? Pois é mesmo Bocage, considerado o maior poeta português do século XVIII, que teve rápida passagem pelo Brasil, foi preso, acusado de ser "autor de papéis ímpios e sediciosos", internado em manicômio e em convento. Sua biografia está no site. Vale a leitura. Escreveu, em Retrato Próprio:
Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura;
Nariz alto no meio, e não pequeno;
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura;
Nariz alto no meio, e não pequeno;
Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
…
Mais propenso ao furor do que à ternura;
…
Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.
A Casa Fernando Pessoa fica no Campo de Ourique, em Lisboa. A internet resolve ao menos parte do problema de quem não pode chegar até lá...
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Minas de matar
Na ressaca da festa de salvamento dos mineiros chilenos soterrados em Atacama.
Dados da Organização Internacional do Trabalho:
- o setor de mineração emprega cerca de 1% da força de trabalho do planeta e registra 8% dos acidentes fatais.
- todos os dias morrem 6.300 pessoas por acidentes ou enfermidades relacionadas ao trabalho, o que representa 2,3 milhões de mortes anuais.
Em pleno século XXI, é como se estivéssemos no ambiente descrito por Émile Zola em 1885, em O Germinal, romance que relata as péssimas condições de trabalho de mineiros de carvão no norte da França.
domingo, 17 de outubro de 2010
Pequenos notáveis
Os insetos representam três quartos dos animais do planeta, têm enorme importância e estão presentes em todos os ecossistemas.
São os mestres da sobrevivência – o que o homem ainda não tira de letra, em ambientes hostis naturais ou culturais.
Os alemães, por exemplo, poderiam aprender como tolerar diferenças em suas terras com os insetos – para quem não viu, a chanceler alemã Angela Merkel acaba de se render às evidências e admitir que a construção de uma sociedade multicultural em seu país fracassou. Entre os franceses isso não é novidade.
Lamentável.
Para os curiosos, o livro Extreme Insects, do entomologista Richard Jones, reúne 150 insetos – o mais brilhante, o mais pontual, o mais cabeludo, o mais empanturrado e o mais afrodisíaco, entre outros.
Segundo o autor, o inseto com a forma de expansão mais incomum é o mosquito transmissor da dengue. Ele se espalhou do Sudeste Asiático para a América do Sul e a África através do comércio de pneus usados, que acumulam água de chuva – ambiente em que procriam.
Leia mais sobre insetos e veja slideshow dessas criaturas no site da BBC Brasil.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Deolinda, uma heroína de Angola no Brasil
Entre 1960 e 1961 viveu no Brasil uma jovem chamada Deolinda Rodrigues Francisco de Almeida. Angolana, era estudante de Sociologia no Instituto Metodista de Ensino Superior, em Rudge Ramos, na Grande São Paulo. Hoje o prédio, tombado como Patrimônio Histórico, guarda um museu. E Deolinda é nome de praça e avenida em Luanda – é uma das Heroínas cuja coragem na luta pela Independência de Angola, entre 1961 e 1975, é lembrada no Dia da Mulher Angolana, em 2 de março.
Deolinda é a mais conhecida das Heroínas de Angola por razões compreensíveis: escreveu um diário que foi preservado; era prima de Agostinho Neto, o herói da independência angolana; seu irmão Roberto de Almeida tornou-se político de realce na Angola independente; e sua história tem ingredientes marcantes.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Páginas atadas
Esta foi uma semana especial para os amantes de livros.
Aconteceu a Feira do Livro de Frankfurt – e definiu-se que o Brasil será homenageado no evento em 2013.
Mas nem tudo foi festa, prazer e poesia.
Sem pretensão de ser exaustivo, um relatório da organização mundial de escritores PEN contabilizou quase 600 casos de prisão, ataques e assassinatos de escritores no primeiro semestre de 2010.
Sem comentários.
Fotos: Peter Hirth/Frankfurter Book Fair Media
Emoção primordial
Compaixão. Tema de coloração religiosa às vésperas do dia de Nossa Senhora de Aparecida, padroeira do Brasil. Milhões de pessoas aflitas, flagelando-se, em prantos.
Seria demais querer entender tamanha esperança de resolver problemas da vida com uma parada na Basílica de Nossa Senhora Aparecida, construção que mais parece um shopping center, com passarela monumental (inclusive no que diz respeito ao mau gosto) e centro de apoio ao romeiro.Mas a compaixão sempre me interessou – especialmente a falta dela. E me ponho a fazer uma pesquisa rápida em escritos de pensadores acerca do assunto.
Para Jean-Jacques Rousseau, que formulou a teoria do bom selvagem, compaixão é sentimento natural que independe de educação – e que é responsável pela sobrevivência do gênero humano, muito mais do que a razão. Mas há idéias mais céticas.
Friedrich Nietzsche e Antoine de Saint-Exupéry falam do lado perverso da compaixão – daqueles que experimentam prazer em serem cuidados e exploram o outro; e da ambiguidade desta emoção que provoca sofrimento e satisfação.
Passeando pela internet descubro um estudo de uma equipe do Departamento de Arqueologia da Universidade de York, na Inglaterra.
Os pesquisadores utilizaram equipamentos de neuro-imagem para examinar evidências arqueológicas do desenvolvimento de emoções e da compaixão em humanos primitivos, de seis milhões de anos atrás até os Neandertais e os homens modernos.
Partiram do momento em que o ancestral comum de humanos e chimpanzés experimentou a motivação para a ajuda mútua. Depois, constataram que o Homo Erectus dedicava tratamento especial a mortos queridos – o que sugere sentimento de luto.
Entre 500 mil e 40 mil anos atrás, os Homo Heidelbergensis e os Neandertais caçavam juntos, organizaram estruturas de atendimento de rotina a feridos e doentes – e há, inclusive, evidências de que ao invés de abandonarem pessoas com problemas congênitos, cuidavam delas por décadas.
Há 120 mil anos os seres humanos modernos demonstram compaixão por estranhos, animais, objetos e até conceitos abstratos.
"Compaixão é talvez a emoção mais fundamental do ser humano e o registro arqueológico tem muito a contar sobre sua pré-história", diz Penny Spikins, que liderou a pesquisa. Não falou na falta dela. Em seres humanos sem compaixão.
O artigo sobre os sentimentos intangíveis dos seres humanos está na revista Time and Mind: chama-se Compassion from the earliest archaic to modern humans. Os pesquisadores também lançaram o livro The Prehistory of Compassion, disponível para compra online.
A foto do modelo de um homem Neandertal foi feita por Javier Trueba e é da Science Photo Library.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
A pedra do caminho
Tropeçou? Preste atenção. Não apenas para evitar a queda. Uma pedra, mesmo pequena e aparentemente simples, pode ser eloquente.
É o que mostra Jan Zalasiewicz, professor de Geologia da Universidade de Leicester, no livro The Planet in a Pebble: A Journey into Earth's Deep History, recentemente lançado nos Estados Unidos e na Inglaterra, ainda sem tradução para o português.Ele explora a construção do Sistema Solar e as origens da Terra. Promove uma excursão que vai do surpreendente número de átomos a indícios de erupções vulcânicas, animais e plantas extintos, formação de petróleo... Tudo a partir de um seixo ao qual, provavelmente, um mortal comum não daria qualquer importância.
Site da Universidade de Leicester - http://www2.le.ac.uk/
terça-feira, 5 de outubro de 2010
A rosa de Melk
Às margens do rio Danúbio, no alto de um maciço rochoso de mais de 50 metros, não muito distante de Viena, fica a Abadia de Melk, uma imensa construção em tom amarelo que os turistas visitam por curiosidade arquitetônica (o conjunto é expoente do barroco austríaco), por devoção religiosa ou para espiar uma biblioteca lendária.
Compra-se o ingresso no portão da muralha, entra-se, e tudo transcorre como num passeio comum em prédios históricos da Europa. Um guia explica que o prédio foi um mosteiro, que hoje funciona como escola para meninos com acesso fechado ao público, e todos se deliciam.
Bem, mas o nome da abadia é Melk – o mesmo do mosteiro em que Umberto Eco ambientou seu livro O nome da Rosa. Tem uma superbiblioteca, que guarda inclusive uma cópia da primeira bíblia impressa por Guttemberg (a original foi vendida aos americanos para pagar a reforma do prédio após a Segunda Grande Guerra). Em seu scriptorium foram copiados centenas de manuscritos com iluminuras.
Eco esteve hospedado ali durante mais de seis meses enquanto planejava, desenhava os cenários, e escrevia seu primeiro romance. Tem de haver algo de muito especial entre aquelas paredes recentemente tombadas pela Unesco como Patrimônio da Humanidade!
A história é assim: por um século, no início dos anos 1000, o imperador bávaro Leopoldo l construiu um castelo que, cem anos depois, foi doado à ordem Beneditina para que fosse transformado num mosteiro. A abadia tornou-se um centro cultural, uma referência em termos de educação, e seus administradores prosperaram.
Entretanto, em 1683, houve uma invasão e os turcos destruíram culturas e construções da região, inclusive o antigo castelo e as construções anexas. A reconstrução teve início em 1702 – e foi aí que o barroco austríaco tomou conta do espaço. Mármores, muito ouro, afrescos... E a biblioteca com mais de 100.000 volumes e cerca de 1.800 manuscritos.
Um incêndio atingiu o monastério durante a Segunda Guerra Mundial, mas houve nova restauração (aquela paga com dólares americanos). A visita vale pena. Se não por outro motivo, pela biblioteca toda em madeira com toques dourados – mesmo que não se possa tocar nos livros, protegidos por grades. O espaço é de tirar o fôlego. São doze salas imensas, com estantes do piso ao teto (de pé direito incalculável), e livros encadernados em couro. Há até uma varanda, tipo mezanino, que propicia uma visão panorâmica do espetáculo.
Os monges beneditinos garantem que nunca houve morte inexplicada ou reuniões do Tribunal da Inquisição naquele local. O Nome da Rosa é ambientado num monastério nos Alpes Italianos. Mas que o caso narrado por Adso de Melk poderia ter se passado ali, ah isso podia!
O site do Mosteiro de Melk - http://www.stiftmelk.at/englisch/index.html
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
O semeador de livros
Num antigo bairro paulistano, afastado do centro da cidade, onde nos anos 1950 e 1960 se instalaram famílias de classe média, se encontrava aquela casa clara, térrea, com jardim amplo - embora já bastante reduzido. Nele foi construído um prédio moderno, climatizado, de concreto armado, para abrigar os milhares de livros, obras de arte, lembranças de viagem do casal Mindlin, José e Guita.
José e Guita compartilharam tudo na vida por 68 anos. Acreditavam que amor e casamento são construções diárias, e que ser feliz é questão de querer. “Brigar é fácil. Não brigar exige parar e pensar”, ensinava José, o sábio.
Logo à entrada, à direita, ficavam a cozinha e a mesa de refeições – onde ambos almoçavam juntos diariamente, quase sempre na companhia de algum amigo. Adiante ficava a sala, dominada por uma enorme estante e decorada com esculturas e pequenos objetos – os quadros eram tantos que ficavam pendurados até sobre as portas. Do janelão de vidro da sala se via o prédio da biblioteca, com mais de 40 mil exemplares cuidadosamente catalogados e preservados.
A coleção começou a se formar quando Mindlin tinha 13 anos de idade. Sua primeira aquisição foi Discours sur l'Histoire universelle de Jacques-Bénigne Bossuet, de 1740. Com o tempo, a biblioteca tornou-se famosa por suas raridades – manuscritos históricos e literários; a versão original de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa; as primeiras edições de Os Lusíadas, de Camões, de O Guarani, de José de Alencar, e de A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo.
Foi neste ambiente que o maior e mais importante bibiliófilo do Brasil curtiu seus últimos 15 anos de vida. Escreveu Uma vida entre livros – reencontros com o tempo, autobiografia deliciosa em que ele confessa, entre outras coisas: "Num mundo em que o livro deixasse de existir, eu não gostaria de viver."
Mindlin encontrava o que queria com um olhar rápido para a estante – a mão alcançava o volume como se estivesse sendo puxada por um imã. Citava longos trechos com lágrimas nos olhos. Recitava décor textos de literatura de cordel. Com paciência sem fim, fazia recomendações de leitura, explicava a importância de autores, contava histórias. E lamentava que a vida fosse tão curta para tanto que havia para ler e apreciar. Conversar com ele era como fazer um curso intensivo. Um prazer.
Filho de um casal de judeus russos que chegou ao Brasil em 1910, Mindlin era advogado formado na Universidade de São Paulo. Era considerado por seus pares como administrador de competência indiscutível, comandante da fábrica de autopeças Metal Leve, exemplo de sucesso e de resistência contra a concorrência de companhias estrangeiras. Desfez-se do negócio com um nó na garganta em meados de 1996, aos 81 anos.
Aposentado como empresário, dedicou-se em tempo integral a suas outras paixões: a leitura e a biblioteca. Em 2006, depois de enfrentar burocracias injustificáveis, conseguiu doar 15 mil exemplares de sua coleção à Universidade de São Paulo, e o acervo foi transferido para o campus da universidade. Mindlin morreu aos 95 anos de idade, em fevereiro de 2010 – com quatro filhos, 12 netos e 12 bisnetos – sem ver pronto e em funcionamento o prédio da biblioteca Brasiliana. O site da biblioteca é http://www.brasiliana.usp.br/index.php. Inclui uma ferramenta para pesquisa digital que permite (ao menos parcialmente) acesso a folhetos e periódicos buscados por conteúdo.
Antes de sua morte, com a vista cansada e enfraquecida, dizia: “Tenho saudades de passear os olhos pelas letras enfileiradas, no silêncio da leitura, e de manusear o objeto de papel e tinta. Nada substitui o livro.”
Leia mais sobre José Mindlin no site da Academia Brasileira de Letras - http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=546
domingo, 3 de outubro de 2010
Cala-te boca
| “Se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim...” Na voz de Gal Costa, Folhetim, de Chico Buarque de Holanda, tem significado bem diferente da fórmula para a estabilidade matrimonial registrada em livro pela dona de casa americana Laura Doyle. Atenção: a fórmula da moça não é em favor da felicidade, da cumplicidade, do companheirismo; mas da estabilidade, da firmeza. E é simples: a mulher deve sempre dizer sim. Não deve discutir. Se quiser tranquilidade, deixará por conta do marido a direção do carro e do controle remoto da televisão. "Se ele perguntar sua opinião sobre alguma coisa, diga que ele é quem sabe. Isso aumentará sua autoestima", ensina no livro Surrended Wife, best seller do New York Times (há um livro seu traduzido para o português, com o título sugestivo Sim, querido). "A mulher pode ser uma lutadora forte e independente no trabalho, mas no lar deve admitir suas fraquezas, mostrar-se frágil e permitir que o marido assuma o comando. Casamento é como uma dança de salão: o homem dirige e a mulher acompanha." Laura casou-se aos 22 anos. Dois anos depois estava à beira do divórcio. Achava que seu marido não era ambicioso no trabalho, que não sabia vestir-se, que dirigia mal. Em casa, ele passava horas na frente da televisão. Os dois não conversavam, não saíam juntos e raramente faziam sexo. Então ela resolveu elaborar sua chave para a harmonia. "A primeira coisa que fiz foi fechar a boca. Não foi fácil, mas fez uma enorme diferença. Depois descobri que se mostrasse confiança em meu marido, ele me daria o melhor de si. Os resultados foram rápidos e radicais. Enquanto eu mudava, ele se transformava no par perfeito." O truque para evitar o divórcio é recomendado a mulheres que se casaram com homens de que gostavam, que respeitavam, e que passaram a lhes parecer desprezíveis. Também para as excessivamente controladoras, que não conseguem parar de corrigir ou ensinar seus maridos. Geoff Scobie, professor de psicologia da Universidade de Glasgow, concorda com as ideias da dona de casa que se tornou escritora. "Nossa sociedade produziu mulheres muito masculinizadas", diz. Segundo ele, as mulheres têm de voltar a cultivar a feminilidade. Recentemente soube que o casamento de Laura Doyle andou estremecido... Talvez porque ela tenha ganhado um dinheirão com a publicação do livro e alcançado destaque maior do que o de seu marido, cujo nome é desconhecido... De todo modo, algumas das suas propostas (poucas, é verdade) são até razoáveis:
Para saber mais, visite o site www.surrenderedwife.com Partes do livro Surrended Wife estão disponíveis no Google Books - http://books.google.com.br/books?id=BGPba6cyqmcC&printsec=frontcover&dq=%22laura+doyle%22+surrended+wife&hl=pt-BR&ei=6DKpTNKvM8Tflgf_nvjEDA&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=1&ved=0CCoQ6AEwAA#v=onepage&q&f=false |
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Tempo relativo
Como usamos nosso tempo? Somos governados pelo relógio? Quais as consequências dessa constatação em nossos relacionamentos, em nossos corpos e mentes? Poderíamos optar por alternativas diferentes? Essas são algumas questões que afloram do livro A Geography of Time, do psicólogo estadunidense Robert Levine – lamentavelmente sem tradução para o português.
Mas comecemos do princípio. Levine era um psicólogo bem sucedido nos Estados Unidos até ser convidado a dar aulas na Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. A experiência provocou uma guinada em seus estudos.
O professor desembarcou no aeroporto do Galeão poucas horas antes da aula inaugural, e sua bagagem não aparecia na esteira indicada. Quando perguntava, aflito, ouvia uma resposta tranquilizadora: aguarde só um minutinho...
O minutinho levou quase uma hora. Levine agarrou a valise, correu para o ponto de táxi, sofreu com o trânsito congestionado, desembarcou na portaria da escola e desembestou pelos corredores para chegar à sala onde já deveria estar a postos. Suava, respirava com dificuldade, e notava que no caminho ultrapassava estudantes caminhando calmamente em direção à mesma sala. Logo descobriu que eram seus alunos, que entravam atrasados sem constrangimento.
O sentimento de estranheza crescia e agravou-se quando, ao terminar o horário da aula, morto de fome e sono, Levine teve de permanecer em pé, atender alunos, responder questões, refletir sobre problemas interessantes… Ninguém não dava sinal de desejar ir embora!
Levine formulou uma hipótese: o tempo do brasileiro é diferente do tempo do americano. De volta aos Estados Unidos, mobilizou estudantes para promover experimentos em diversas partes do planeta. Eles mediram desde a velocidade média de caminhada de trabalhadores em horário de almoço em avenidas movimentadas, até o tempo despendido para a compra de um selo numa agência de correios, passando pela precisão dos relógios em praças centrais de grandes cidades. Analisou 43 países. Ao concluir que povos diferentes percebem o tempo de formas diversas, Levine deu o passo seguinte. Comparou a precisão na percepção do tempo com o grau de desenvolvimento das economias. Segundo apurou, os povos mais ricos são os mais atentos ao relógio.
A questão que ficou: a riqueza implica necessariamente em melhor qualidade de vida? Sim, porque muitos dos povos pesquisados, que sequer têm relógio na praça ou no pulso, têm saúde e alegria... E gozam a vida de maneira calma e contemplativa...
A imagem da ampulheta foi retirada do site historia.pro.br.
As demais estão disponíveis na página de Robert Levine no site da California State University, Fresno: http://psych.csufresno.edu/levine/
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Diplomacia Especial

Um senhor elegantíssimo, entrando na casa dos 80 anos de idade. Terno impecável. Fala tranquila. E histórias de arrepiar. O embaixador aposentado Ovídio de Andrade Melo, nascido em Barra do Piraí, no Rio de Janeiro, é pintor: artista primitivo que assina Juca seus quadros que retratam do metrô de Londres a paisagens africanas. Também é escritor: publicou “Recordações de um removedor de mofo do Itamaraty: relatos da política externa de 1948 à atualidade”.
Conversei com ele em 2009 por outro motivo. Ovídio Melo foi nosso homem no processo de independência de Angola. O trabalho que realizou resultou num marco. Em 1975, em plena guerra fria, o Brasil, sob regime militar de direita, foi o primeiro país a reconhecer a independência da República Popular de Angola e o governo de Agostinho Neto, presidente do Movimento Popular de Libertação de Angola, o MPLA, apoiado pela União Soviética.
O presidente do Brasil era o general Ernesto Geisel. Seu chanceler, Azeredo da Silveira. Na política externa, por razões conjunturais e de humor de Geisel, o tom era de autonomia em relação aos Estados Unidos. Ovídio, que estava baseado em Londres, esteve na África por várias vezes, no início de 1975, para conversar com os movimentos de libertação das colônias portuguesas, em especial Angola, e conseguir espaço para que o Brasil estabelecesse uma espécie de missão diplomática antecipada, acompanhasse a transição para a independência e planejasse relações futuras entre os países.
A Representação Especial do Brasil em Luanda recebeu carta branca. O embaixador e sua esposa Ivony Melo desembarcaram no aeroporto da capital angolana em março de 1975, em meio a uma guerra-civil acirrada. A missão de contatar lideranças dos três movimentos independentistas, e analisar a situação local, não seria assim tão complicada se estivessem os três partidos estabelecidos em Luanda; se houvesse água, luz, meios de comunicação. Não era o caso. Angola estava em situação caótica.
Aqui vão algumas das aventuras vividas pelo diplomata brasileiro em Angola. Reunidas, suas experiências dariam um romance ao estilo Graham Greene.
Para falar com Jonas Savimbi, chefe da União Nacional para a Independência Total de Angola, a UNITA, foi preciso tomar um carro emprestado a um engenheiro português e percorrer estradas esburacadas por mais de quatro horas, até a pequena cidade de Silva Porto, na província de Huambo, no sudeste do país. Ali nascera Savimbi e ali, também, estava instalado seu quartel-general. O casal foi parado e revistado várias vezes nas ruas de Silva Porto, a caminho do hotel onde seria recebido. Depois, novamente, na sala do primeiro andar onde o encontro de poucos minutos, que nem rendeu muita troca de ideias, foi assistido por guerrilheiros armados postados ao lado de portas e janelas.
Segunda parada: Kinshasa, a capital da República Democrática do Congo, para um encontro previamente agendado com o chefe da Frente Nacional de Libertação de Angola, FNLA, Holden Roberto. Este, durante toda a reunião, falou de si, de seu poder, seus feitos, e sua importância como defensor da democracia e do Ocidente na África.
Dias depois, Ovídio Melo estava em Nairóbi. Queria marcar entrevista com Agostinho Neto em Dar El Salaan, na Tanzânia, onde o MPLA tinha escritório. Soube que o líder do Movimento iria voar bem cedo, no dia seguinte, e se dispunha a conceder a entrevista no aeroporto de Nairóbi, onde faria uma escala rápida. Mas o embaixador brasileiro andava meio cansado de conversas rápidas. Queria mais. Na mesma noite foi para Dar El Salaan disposto a voltar no avião em que Agostinho Neto embarcaria na manhã seguinte. Resultado: a conversa durou todo o trajeto entre as duas capitais africanas. E Ovídio Melo soube que aquela viagem tinha significado histórico e sentimental para Agostinho e sua comitiva. Era o fim do exílio do MPLA na Tanzânia. Depois da escala em Nairóbi todos seguiriam para Luanda, aonde chegariam em 4 de fevereiro, data do início da luta pela independência em Angola.
Por volta de um mês antes de 11 de novembro, o dia da Independência de Angola, o Embaixador conversou com o Brasil e enviou correspondência com suas observações e recomendações ao Itamaraty. Recorda que argumentou:
“Tínhamos sido respeitosos para com todos os movimentos organizados em Angola, tínhamos sido neutros em todas as lutas que presenciamos, tínhamos desejado chegar cedo a Luanda para planejar as relações futuras. Deveríamos, então, reconhecer Angola na data exata da Independência, porque estivemos sempre, e estaremos no futuro, irmanados pela língua, pela cultura, pela História."
Assim foi. No mesmo momento em que Agostinho Neto proclamava a independência em Luanda, o governo brasileiro divulgava, em Brasília, nota de reconhecimento do novo país e de seu governo.
O Embaixador Ovídio estava na sacada do Palácio quando Agostinho Neto discursou. Era o único chefe de repartições consulares a permanecer em Luanda. Não apenas testemunhou a posse do novo presidente angolano: assistiu as manifestações populares e participou das comemorações do MPLA. Dois meses depois estava de volta a Londres. Dali foi ser Embaixador na Tailândia, onde acompanhou os rescaldos da terminada guerra do Vietnam. Mas esta é outra história.
A foto, que me foi enviada pelo Embaixador Ovídio Melo, é datada de 1975. Nela aparece também a embaixatriz Ivony Melo.
sábado, 21 de agosto de 2010
Assalto a uma biblioteca
Com uma visita marcada para uma reunião de trabalho, saí a buscar o endereço pelas ruas do centro de Luanda, em Angola. Não foi muito fácil encontrar o prédio, mas cheguei. Era noite. Portão para a rua. Buracos nas paredes. Homens conversando na calçada. Subi as escadas escuras e dei com uma porta de ferro.
Bati. O dono da casa abriu a fortaleza e eu quase rolei escadas abaixo. Três cachorros enormes, dentes pontiagudos à mostra, rosnavam e latiam descontrolados. Ele se desculpou. Tornou a fechar o bunker, prendeu os cães e me convidou para entrar.
O apartamento era no quinto andar, mas nos últimos meses tinha sido invadido duas vezes por ladrões. Para roubar comida, porque além de livros muito mais não havia. E, pobre do meu anfitrião, eu levei muitos de seus livros...
Bati. O dono da casa abriu a fortaleza e eu quase rolei escadas abaixo. Três cachorros enormes, dentes pontiagudos à mostra, rosnavam e latiam descontrolados. Ele se desculpou. Tornou a fechar o bunker, prendeu os cães e me convidou para entrar.
O apartamento era no quinto andar, mas nos últimos meses tinha sido invadido duas vezes por ladrões. Para roubar comida, porque além de livros muito mais não havia. E, pobre do meu anfitrião, eu levei muitos de seus livros...
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
A intrigante saga de Lily
Os holofotes iluminaram Lily Safra, a biliardária brasileira que, segundo a revista Forbes, é dona de 1,3 bilhão de dólares, com a publicação do livro `Gilded Lily` (Lily Dourada), uma biografia escrita pela premiada jornalista americana Isabel Vincent, do New York Post. Em 2010 ela ocupou o noticiário por doações que fez a hospitais e instituições de pesquisa, por aquisições e vendas de obras de arte, e também por sua amizade crescente com a nobreza da Inglaterra, em especial com o príncipe Charles e sua esposa Camila. Seu nome figura em jornais e revistas internacionais há décadas. Entretanto, pouca gente conhece Lily. Especialmente no Brasil, onde ela só ganhou algum destaque quando assumiu o sobrenome Safra, de uma das mais bem sucedidas famílias de banqueiros do país. Edmond Safra foi seu quarto marido e teve morte trágica.
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