quarta-feira, 25 de abril de 2012

Português, brasileiro ou africano?


   Li hoje Acordo Desortográfico e pus-me a pensar.


   Acabo de recolocar na estante Caim, do português Saramago. Sua leitura não teria o mesmo sabor se o texto estivesse em brasileiro. O mais recente livro do escritor angolano Pepetela foi editado em Portugal, lançado em Angola e está a ser traduzido antes de ser disponibilizado nas livrarias brasileiras. Uma pena.


   Em meu trabalho, por vezes escrevo em português do Brasil, por vezes  de Portugal, de Angola ou Moçambique. Há expressões tão locais que não é fácil compreendê-las sem ter ao lado quem as explique.


   O angolano tem um falar mais próximo ao de Portugal. Como os portugueses, chama embondeiro à árvore que conhecemos por baobá (denominação que franceses e ingleses adotam e que aparece no livro Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry). Em Moçambique, ai de quem usar uma dessas palavras quando encontrar um espécime de tal planta pela frente. Ouvirá um indignado "Este é um malambe!” E, se pá, até um complemento do tipo: "Estás a falar como um colonizado!".


   Um amigo costuma dizer: "A fala do brasileiro é tão característica e diferente da de outros países de língua portuguesa porque somos africanos, pouco influenciados pelos portugueses". Claro está que a angolanos e moçambicanos não agrada este comentário. 


   Estou a misturar no mesmo tacho expressões e maneirismos deste tão rico idioma, como os mais atentos já devem ter percebido (em Portugal, Angola ou Moçambique esta palavra poderia ser entendida como ouvido ou escutado, portanto talvez fosse melhor substituí-la por compreendido).


   Seria mesmo bom, como sugere o blogueiro que redigiu Acordo Desortográfico, se cada qual pudesse optar pelo português que deseja falar ou escrever. Há, no entanto, um problema que requer solução - e para o qual talvez esse Acordo possa dar seu contributo (contribuir, em brasileiro).


   Ocorre que é elevadíssima a taxa de analfabetismo nos países de África que foram colonizados por portugueses e tiveram sua independência há trinta anos e pico (pouco mais de trinta anos, em brasileiro). Nas escolas, miúdos (crianças) são alfabetizadas com livros doados por portugueses, brasileiros e até cubanos - cada qual com sua maneira de escrever, sua visão de mundo e tal. Os estudantes limitam-se, portanto, a apreciar as figuras. Muitos deixam as escolas e seguem utilizando seus idiomas tradicionais - o que dificulta o bom entendimento, uma vez que há mais de 100 desses idiomas somente em Angola e Moçambique.


   Gosto de escrever aldrabice (trapaça), jindungo (amendoim), katana (facão). Até o inclusivamente dos angolanos, tão mais abrangente do que o inclusive do Brasil. De dizer yá quando quero dizer sim. De ouvir um amigo chamar-me mãe quando desembarco em Luanda. Seria bom se o Acordo fosse apenas ortográfico. Retirasse o c de facto, o p de óptico e o acento agudo de ideia, por exemplo, sem arriscar o que há de próprio em cada região.   


   No Brasil, onde vivem 190 milhões de falantes da língua portuguesa, para saudar um amigo ou para terminar uma frase, o gaúcho, nativo do estado do Rio Grande do Sul, usa a expressão çhe. O baiano, nascido na Bahia, diz rapá, assim, desse jeitinho, sem o z final - esteja falando com um rapaz ou com uma senhora. E o paulista da cidade de são Paulo, pobre, vítima de brincadeiras de seus conterrâneos, deixa escapar um meu a cada duas ou três palavras. Falou meu, fudeu. Nunca mais a criatura será abraçada por esse país chamado Brasil.

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